Fundação Dorina Nowill entrevista Simone Freire

Publicado em 28 de março de 2011

Simone Freire, diretora da Espiral Interativa, fala à Fundação Dorina Nowill sobre acessibilidade na internet e novidades no portal da Fundação.

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Equivalente textual do CD 'veja" de 3/11/2010 da Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Bebeto: Os estúdios da Fundação Dorina estão recebendo, hoje, uma pessoa que vocês vão ouvir falar muito ainda, porque ela está ficando extremamente importante pra Fundação, e vai ficar importante pra vocês também. É a Simone Freire, que é a diretora da Espiral, que é uma empresa focada na web e que está encarregada inclusive de transformar o portal da Fundação Dorina em um portal fera e ela tem todas as condições de fazer isso porque, na realidade, eles não gostam de falar que fizeram o primeiro portal acessível, mas são realmente pioneiros em portais com acessibilidade e a prova que está funcionando muito bem é que eles já conseguiram 50 mil visitantes. Simone, como é esta história? Porque vocês entraram nisso?

Simone: Bom, primeiro, bom dia Bebeto! Eu queria agradecer este convite, estou nesse lugar tão especial, que é o estúdio aqui da Fundação Dorina.

Bebeto: Pode dizer que é apertado demais!

Simone: É apertado, mas o ar condicionado está funcionando direitinho, está tudo ótimo! Poxa, como começou a história, é a sua pergunta? Bom, como você comentou no início do nosso bate-papo, eu tenho uma agência digital, então a gente desenvolve praticamente projetos voltados para web, e de um ano e meio, dois anos pra cá, agente parou internamente e falou: “a agência está indo tão bem, a gente está crescendo, felizmente, e a gente queria dar um retorno, de certa forma, pra sociedade, além dos projetos que a gente faz pra iniciativa privada, geralmente.

A gente queria dar esse retorno de alguma forma associado ao negócio da gente, que é internet. Então a gente estudou alguns públicos, pensando em desenvolver um portal que ajude a incluir um grupo digitalmente, um grupo, teoricamente mais excluído da internet por dificuldades, enfim, técnicas. E a gente pensou em jovens, em gente da terceira idade, e na ocasião, a irmã de um dos nossos coordenadores trabalhava com pesquisas de célula-tronco, e ela disse assim: “gente, eu estou muito focada em pessoas com deficiência, fazendo estudos em Nova York, e o que eu tenho percebido é que não existe informação do dia-a-dia, cotidiano, relacionado a direitos, relacionado a exposição acessível, a serviço desse público.”

O que a gente encontra são sites de instituições que falam, geralmente, sobre as suas próprias atividades, mas não existe, por exemplo, um portal dedidaco a esse público, e a gente ficou com aquela sementinha, e começamos a estudar na agência, fizemos um benchmark, olhamos mais de 200 sites lá fora, na verdade, 200 sites aqui no Brasil, e mais de 50 sites lá fora, e realmente era uma ideia inovadora, não tinha nada sobre isso. E, pra jornalista, comunicólogo, desenvolvedores, isso foi um mega desafio, ninguém fez ainda, e na ocasião, nós temos experts em web, tudo que você puder imaginar de web a gente faz, mas não temos expertise da prática da acessibilidade, que é totalmente diferente, a gente não tinha nenhuma pessoa com deficiência na equipe, na ocasião, fomos atrás da Mara Gabrilli, e a gente tinha uma pessoa que já conhecia a Mara, mostrou a ideia por alto, e ela falou “Vem aqui e me apresenta o que vocês tem em mente.” Quando a gente apresentou, não tinha desenvolvido ainda, a gente tinha a semente plantada, ela ficou maravilhada com o projeto.

Bebeto: Mas você está vendendo o projeto, e não está dizendo como eles acessam, qual é o endereço?

Simone: O endereço é vidamaislivre.com.br.

Bebeto: Vida Mais Livre em uma palavra só? Ponto com, ponto br?

Simone: Tudo junto! Exatamente!

Bebeto: Há quanto tempo ele está no ar?

Simone: Está no ar desde o final de fevereiro, deste ano (2010)! Ele é um bebê, nem tem um ano ainda.

Bebeto: Se eu entrar no portal, o que eu tenho como oferta?

Simone: Você tem notícias atualizadas em tempo real, a gente tem em média 8, 10, 12 notícias por dia, você tem a aréa de empregos, que é uma parceria da gente com a i.Social, que foi uma mega apoiadora, então, semanalmente eles mandam pra gente algumas oportunidades premium pra gente oferecer para os leitores do Vida Mais Livre, sempre pra pessoas com deficiência, você tem dicas de políticas públicas, exemplo, “Você sabia que você tem direito de comprar um carro com isenção de imposto X?”, você tem colunistas sensacionais, que você lê as colunas e aquilo arrepia, de você pensar “Como a pessoa consegue?” e não é negócio de auto-piedade, são coisas que você olha e fala “Poxa!”.

Bebeto: Depoimentos de “Como venci apesar dos problemas”?

Simone: Exatamente! Nós temos colunistas de Portugal, contando as experiências, como é a acessibilidade em Portugal, nós temos colunistas em Miami, um brasileiro que esta lá há vinte anos, que também faz as comparações de como é a acessibilidade lá fora.

Bebeto: E como é a acessibilidade do Portal? É fácil navegar por ele?

Simone: É facílimo! Até pra você entender como a gente chegou nesse portal, antes de lançá-lo, a gente abriu, um mês antes, pra um grupo com cerca de 30, 40 pessoas com deficiência visual, auditiva.

Bebeto: Você fez um test-drive?

Simone: Porque a nossa equipe estava simulando as deficiências, e hoje isso é mega possível, porque você tem software, mas nada como a própria pessoa fazendo aquele teste, porque ela cresceu com aquele problema de visão, problema de audição, ela aprendeu a viver naquele mundo, então a gente fez testes e os retornos foram sensacionais. “Vocês fizeram assim, mas se fizerem desta outra forma vai melhorar completamente a vida de quem navega com teclado“...

Bebeto: Ela acaba de me contar o que estava cobrando dela, “E o novo portal da fundação vai ter fotografia minha?”, e ela me respondeu na hora, vai ter fotografia e vai dizer que você usa barba, que você é feio, que você é assim, assado!

Simone: Mentira, o feio ele que está falando! Mas é legal você ter tocado nesse ponto, porque muitas pessoas perguntam “Qual a diferença de um site acessivel para um site convencional?” E quando você entra no site, você acaba não vendo muita diferença, não entendendo, só que está tudo por trás. Então tem a preocupação de colocar legenda na foto, isso que você comentou, então a pessoa com deficiência visual entra ali e vai saber o que aquela foto está falando, o que as pessoas estão enxergando, e que ela não tem aquele privilégio, enfim, tem recursos pra quem tem problema de audição, não dá nem pra ficar falando aqui, porque a gente vai ficar aqui até amanhã, mas tem todo um preparativo por trás do portal, pra que as pessoas naveguem com a maior facilidade possível.

Bebeto: O que impressiona Simone, é que na realidade, o número de acessos que você teve em um prazo tão curto, e são acessos únicos, como você me disse, me dá a entender que realmente havia uma lacuna, na hora que você preencheu essa lacuna, os deficientes disseram “É isso que eu estava querendo”, e sairam atrás, é isso mesmo?

Simone: É isso, e até pra complementar esses números, uma coisa que dá o retorno pra gente a interação que eles fazem conosco.

Bebeto: Então é um portal interativo?

Simone: É! Eles mandam fotos de flagras, tem uma sessão bem bacana chamada “Flagras”, por exemplo, você está andando com o seu celular, nesse caso não se aplica a pessoa com deficiência visual, e você vê alguém parado em uma faixa de pedestres, ou em uma calçada preparada pra acessibilidade, o pessoal tira foto e manda pra gente pelo portal, e a gente publica.

Bebeto: Então isso funciona como uma denúncia?

Simone: Como uma denúncia! Positiva ou negativa. Outro dia mandaram pra gente, foram ao Mc Donald’s e estava tudo em braille, tudo bonitinho, então eles foram lá e tiraram foto, e parabéns! A empresa está preocupada em cumprir a lei.

Bebeto: E é fácil fazer essa interação? Como o deficiente manda?

Simone: Envia! Está o espaço lá, “Envie aqui a sua foto, o seu texto”, ele pode colaborar no portal inteiro, então ele pode enviar vídeo, comentar todas as notícias. A gente postou recentemente uma matéria de um banco oferecendo 400 vagas pra pessoas com deficiência, e colocamos no destaque, porque não é todo dia que 400 vagas de uma instituição só, mas era em São Paulo, e apesar dos comentários serem moderados, naquela matérias tivemos mais de 100 comentários, isso é quantidade de comentários de portal como o Uol, e o pessoal mandou muitos comentários, como “Onde já se viu, um banco abrir 400 vagas só em São Paulo, vocês acham que só tem pessoas com deficiência na capital”, e vários comentários elogiando, então você você vê o alcance e o poder que a gente tem nas mãos com esse tipo de ambiente, porque esse público é excluído digitalmente, porque ele não tem como entrar no portal de notícia, como Uol, Ig, Terra, e por aí vai, esse portais têm uma acessibilidade mínima!

Bebeto: E me conta outra coisa, eles estão fazendo sinal que temos pouco tempo, o que você vai fazer no portal da fundação? Você tem ideias maravilhosas já?

Simone: Nós não podemos divulgar ainda, espera, só vou deixar vocês com um gostinho.É, hoje o portal da fundação está bem estruturado, tem bastante texto, tem bastante informação, mas essa questão da acessibilidade, como já foi desenvolvida há algum tempo, na ocasião não tinha essa preocupação, mesmo sendo fundação, a web não tava olhando com tanto carinho pra essa questão.

Bebeto: E não havia tantas ferramentas, não é?

Simone: Não havia! Então agora o nosso grande desafio é tornar o portal o mais inclusivo possível. Então toda essa experiência que adquirimos com o Vida Mais Livre estamos trazendo para o portal da fundação, então, vamos interagir com o público, vai estar tudo mais fácil, os códigos vão estar totalmente preparados.

Bebeto: É, a facilidade é uma coisa importante, porque há muito comentário, não chega a ser reclamação, de que se perde muito tempo para conseguir chegar na informação. Você vai simplificar isso?

Simone: Sim, com certeza! Este é um trabalho que é feito desde o início do projeto. Então quando ele entrar no portal e procucar saber como se matricula em um curso de reabilitação, que livros digitais ou Daisy ele tem disponível, vai ser muito rápido para ele acessar isso? Vai ser muito rápido! E complementando, Bebeto, uma coisa que eu acho que vale tanto para o nosso portal, quanto o portal da fundação, o feedback do leitor e do visitante é imprescindível pra gente melhorar sempre. Então, agora eu estou falando como diretora da Espiral, a gente vai fazer um trabalho sensacional, maravilhoso, eu não tenho dúvida disso!

Bebeto: Quando você começa?

Simone: A gente já começou! Já estamos desenvolvendo, já recebemos vários materiais de vocês, já fizemos reuniões pra definir a nova estrutura do portal, mas o que vale mesmo é quando a gente lançar, e realmente ter esse feedback de todo mundo.

Bebeto: Então, você tem certeza que a gente vai ganhar muito com as modificações do portal?

Simone: Com certeza! Até porque a gente já está pegando todo feedback que foi dado até agora.

Bebeto: Ah, você tem centenas de e-mails comentando?

Simone: Na verdade, nós não temos, mas pegamos um retorno muito grande das meninas da comunicação de vocês, dizendo o que funcionou, o que não funcionou, o que o pessoal visita, o que não visita, o que tem necessidade de estar mais fácil no portal, coisas que estão bem escondidas, e quando você analisa a visitação, você vê que é tão visitado, mas está tão escondido, vamos colocar isso na primeira página em lugar de destaque!

Bebeto: Perfeito! E quem desejar fazer reclamação ou sugestão, ou tiver alguma demanda, algo que gostaria de ter no portal, que não tem, como ele entra em contato com você?

Simone: Então, você está falando especificamente do portal da fundação?

Bebeto: Do portal da fundação! Pra onde escreve?

Simone: Então, pode mandar no fundacaodorina@espiralinterativa.com, nós fazemos o pedido que essa solicitações sejam referentes a melhorias no site da fundação. Podem começar a escrever e pedir exatamente o que vocês anseiam de um portal que atenda toda demanda de um deficiente visual!

Bebeto: Perfeito! E nós estamos lá para conversar, e vamos atrelar isto a comunicação, porque nem tudo é possível, tem algumas limitações tecnológicas. É possível você voltar aqui à medida que o portal for evoluindo, e contar as novidades?

Simone: Com certeza! Eu adoraria vir aqui e poder compartilhar isso com vocês!

Bebeto: Muito obrigado!

Simone: Muito obrigada, querido! Obrigada gente!

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