Meu acidente - 4ª parte
Publicado em outubro de 2011
Sou transferido da clínica de Santo António para o serviço de medicina física e reabilitação, do Hospital Curry Cabral, em Lisboa. A febre continuava, análises nada acusavam … até que dias depois, ao fazerem-me a higiene detectam uma escara no trocânter (parte da perna) direito em péssimo estado. Depois de intervencionada e limpa, restou um grande buraco que até permitia ver o osso. Aí estava a resposta a todo o sofrimento que estava a passar. A infecção vinha de dentro. Entretanto tinha-me debilitado muito e foi necessário reabilitar-me com alimentação especial e transfusões de sangue, assim como esperar que a escara estivesse pronta para ser reconstruída pela cirurgia plástica. Aconteceu, tiveram que me retirar um pouco do osso que já estava infectado, mas segundo me informaram na época, fora esse fato, a operação foi um sucesso. Certo é que naquela região, até agora não tive mais problema nenhum. Tenho é que explicar à maioria dos médicos o que aconteceu com o osso. Começam a olhar para o exame e…”você tem aqui qualquer coisa…”.
Há praticamente 6 meses que não saia de uma cama, banho de verdade, nunca mais, era uma bacia com pouca água, e com um pano úmido esfregavam-me o corpo. Alguns, com pressa, esfregavam-me as partes genitais e o rosto com mesmo pano e água, lavar a cabeça era uma vez por mês. Nem imaginam a comichão que dava! Mesmo quando a lavavam era de faz de conta. Dentes impossível escovar… A hora da refeição também era um momento muito difícil, nestes tempos de acamado e dependente. Técnica era mastigar rápido, sem tomar o gosto ao que me punham na boca, isto porque comida escolhida e dada pelos outros vem tudo o que gostamos e não gostamos.
A gordura, peles…peixe, evitava pedir por causa das espinhas. Abria a boca, começava a mastigar, já tinha outra colher cheia encostada à boca. Era uma complicação. Outra coisa que me aborrecia era pedir para me limparem o nariz. Coçar-me não pedia. Disfarçava o pensamento. Começava a pensar noutra coisa. Ainda hoje o faço quando estou deitado e não chego onde sinto a comichão. Garanto que resulta. Alguns colegas tinham a sorte de ter família a morar por perto e na hora das refeições vinham dar-lhe a comida dali, ou trazida de casa. Mas eu e maioria éramos de longe. Eu não tinha quem me desse as refeições, mas tinha diariamente a visitar-me um anjo da guarda, era uma prima que trabalhava a uns 20 minutos do Hospital e aproveitava a hora do seu almoço para me visitar. Vinha a comer pelo caminho para poder estar comigo e um bolinho para me dar por ela, nunca faltava. Minha querida Carmita foi um apoio que jamais esquecerei. Não faltou um dia. Sempre alegre e bem disposta. Anos mais tarde confidenciou-me que aquela alegria era aparente. Que chegava à rua e começava a chorar. Ela foi muito importante para mim.
O tempo passou, a escara cicatrizou e os levantos para uma cadeira de rodas muito esquisita (aquela com encosto muito alto) começaram. Fazer plano inclinado também. Deitavam-me numa estrutura parecida com uma maca e iam-na inclinando verticalmente todos os dias um pouco mais. Atualmente, antes de nos levantarem vestem-nos meias elásticas de contenção, cinta abdominal e somos injetados constantemente com anticoagulantes. Em 1991, nada disso se usava. Tomei meu primeiro banho em vários meses. A água a escorrer pelo rosto foi revigorante. Sentia-me imundo e por mim até era esfregado com uma escova. A seguir, tive outra grande alegria. Foi uma sensação indiscritível ver o sol, senti-lo … há uns 8 meses que não ia à rua. Chorei de emoção. Vi o mundo pela 1ª vez depois de tanto tempo. A partir daí, todos as vezes que tivesse alguém que me empurrasse a cadeira, lá íamos para os jardins do Hospital. Estávamos em pleno verão.
Depois de mais estabilizado comecei a reabilitação: fisioterapia, terapia ocupacional, fisioterapia respiratória, tentar comer sozinho, treino vesical (referente a bexiga) e intestinal… primeira vez que me levaram ao refeitório e me colocaram um grande guardanapo, talher adaptado na mão e um prato com comida à frente, jurei que iria tentar comer sozinho e um dia ainda iria conseguir. Naquele dia e outros seguidos, foi um desastre. Sujei-me todo, queimei-me com a sopa…mas tentei. 2 anos depois já comia sozinho.
Treino intestinal era como atualmente, vesical não. Educar a bexiga era com batidas, na zona do abdômen. Se não saísse urina, batidas tornavam-se cada vez mais fortes a ponto de nos criarem feridas. Transferências para a cama e vice-versa também era diferente. Treinavam-nos através do pendural.
Tudo foi correndo dentro da normalidade, minhas melhoras em nível de independência não se notavam, o ambiente era muito sadio, profissionais muito experientes. Ali não se brincava à reabilitação. Lembro-me que ninguém adquiria uma escara. Viravam-nos na cama, sem falta, de 3 em 3 horas, no mínimo. Eram muito rigorosos com o tempo que nos deixavam ficar na cadeira. Para nos ambientarem com a nossa nova vida, programavam saídas, minha primeira foi ir a um passeio pelos arredores do Hospital, que fica praticamente no centro de Lisboa, e almoço. Ver gente no seu dia-a-dia, primeiros olhares, atravessar passadeiras e principalmente sentir as dificuldades de andar na rua em cadeira de rodas, fez-me pensar muito. Estar no Hospital protegido era uma coisa, deparar-me com a minha nova realidade era completamente diferente.
Certo dia, aparece um senhor com uma cadeira de rodas elétrica para eu experimentar. Adaptei-me tão bem que fiquei logo com ela. Foi um grande passo para minha independência. O poder ser livre e deslocar-me sem ajuda de ninguém subiu minha confiança. De tanto circular até enjoei. Mas logo passou. Começaram a preparar-me para vir a casa pela 1ª vez e segundo o que diziam os veteranos, era sinal que brevemente me dariam alta. Era assustador só de pensar no assunto. Mas esse dia chegou. Fui a primeira vez a casa, no Natal de 1991.
Continua…





