Eduardo Jorge

Meu acidente: De volta ao centro de reabilitação - 6ª parte

Publicado em fevereiro de 2012

Em quase um ano, ter passado o primeiro fim de semana fora do ambiente hospitalar deveria ter sido uma alegria, mas não, para mim foi o despertar de todas as dúvidas e pesadelos. Foi muito bom ver a família reunida, sentir que estavam comigo…etc, mas por outro lado, mostrou-me todas as minhas limitações e fragilidades. Foi o assumir que iria ser enviado para casa sem ter um lugar próprio e em condições para me receber, quem me auxiliasse (minha mãe com idade avançada e muito frágil e pai já falecido), onde trabalhar, iria viver de quê? Essas perguntas não saiam da minha cabeça.

Não era só eu que vivia essa angústia quando tínhamos alta do lugar onde sempre tivemos quem nos auxiliasse em tudo. Por incrível que pareça sentiamo-nos protegidos no centro de reabilitação. O mundo cá fora era assustador. Conto-vos dois casos que descrevem bem este assunto: foi comunicado a um colega que teria alta definitiva dia X, colega esse que se deslocava em cadeira de rodas inicialmente, mas devido a uma recuperação fantástica já conseguia fazer alguns trajetos em muletas e ser independente em quase tudo. Certo dia caiu nos corredores e, a partir, desse momento voltou a deslocar-se em cadeira de rodas e nunca mais conseguiu ter independência nenhuma. Ficou pior. Seu caso regrediu e médicos suspenderam-lhe a alta já marcada, prolongando-lhe a estadia no Hospital.

Tudo normal, se certo dia numa das rampas que dão acesso ao Hospital a cadeira dele não tivesse iniciado a descida sozinha e repentinamente ele lançasse as mãos aos travões para evitar ter uma grande queda. Ele que até movimentos das mãos tinha perdido supostamente devido à queda anterior. Este acontecimento foi presenciado por alguém do corpo médico, mais uma avaliação ao rapaz, chamado à responsabilidade, e lá confessou que estava bem, queda tinha sido o pretexto para não lhe darem alta. Que não tinha ninguém que o recebesse em casa, lugar para onde ir. Queria continuar ali.

Recordo-me de outro caso: uma moça que sempre que a madrasta a vinha visitar, fazia de tudo para parecer normal, não estar destinada a ficar na cadeira. O que agora, muitos anos depois mais me impressiona e mexe comigo, é recordar-me como se fosse hoje, visualizar a cena onde aquela moça, logo que madrasta entrasse no quarto, se dirigisse a ela e lhe perguntasse como estava, estacionar a cadeira de rodas de frente para o fundo da cama dela, travá-la, desviar os suportes de pés, por com ajuda das mãos os seus pés no chão, chegar o rabiosque (nádegas) à frente no assento da cadeira, agarrar com as duas mãos o suporte de ferro/alumínio do fundo da cama (tipo umas grades) e com a ajuda de imensos espasmos que tinha, levantar-se e ficar uns segundos em posição de pé. Virava-se para a madrasta e dizia: vê, cada dia estou melhor, ou algo do gênero.

Agora sei que aqueles espasmos (movimentos involuntários) nada nos ajudam e não são sinônimo de melhoras, pelo contrário. Mas aquela moça também o sabia, isso tenho certeza. E também tenho certeza que os usava para poder vir para casa e não ser enviada para outro lugar. Isto porque a madrasta pressionava-a e ao pai. Dizia muitas vezes que o que uma moça como ela ia fazer em casa se não estava curada. Que não tinham que lhe dar alta antes de estar completamente recuperada. Já imaginaram o sofrimento daquela moça?

E não havia uma instituição que nos recebesse, perguntam alguns? Acho que sim. Naquela altura, 20 e poucos anos atrás, informação era praticamente nula, se agora não somos "achados e nem perdidos", naquela altura ainda era pior. Não contávamos literalmente para nada. Mas chegava-nos ao ouvido através de colegas que estavam internados conosco, vindos desses lares, que onde estavam não havia condições nenhumas, (se agora ainda o não são, imaginem naqueles tempos…) que eram muito mal tratados. Aquela informação mais nos fazia temer a alta definitiva.

Pois é…cada caso é um caso, cada família é uma família, e cada um reage de uma maneira diferente. Mas, antes como agora as coisas continuam a não ser fáceis e a maioria após acidente continua a temer o que o espera cá fora, e a possível institucionalização. No fundo, tudo parece estar como "dantes no quartel de Abrantes…”

Continua...

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