Eduardo Jorge

Minha história – De volta para casa – 8ª parte

Publicado em abril de 2012

Agora que tinha a cadeira de rodas elétrica, depois dos tratamentos, ia sempre dar uma volta pelos jardins do hospital. Era uma ótima sensação sentir-me livre e independente, ter um pouco de privacidade, poder sair sozinho e sem precisar da ajuda de ninguém. Depositei até expectativas demais na cadeira de rodas. Não sei porquê, mas achei que com a cadeira poderia ir a qualquer lugar e tudo seria simples. Não fazia ideia das barreiras arquitetônicas que me aguardavam...

Tive o primeiro grande exemplo quando fui à Fundação Calouste GulbenkianSite externo., que ficava perto do hospital e arrisquei ir de cadeira de rodas. O problema surgiu não no espaço da Fundação, mas sim no trajeto até lá. Foi meu primeiro impacto com o exterior, primeiras dificuldades. Foi traumatizante. Olhares das pessoas, a realidade dura e crua de andar no centro de Lisboa há 20 anos atrás… Ao juntar a tudo isso, só não cai da cadeira por muita sorte. Ninguém me explicou como seria a maneira mais adequada de ultrapassar degraus, elevações acentuadas... descia de frente, sem cinto e sem noção nenhuma de perigo. Apanhei um grande susto logo no primeiro passeio. Desci de frente e lá vai o tronco todo para a frente. Foi quase. No centro médico, comentei o episódio com minha terapeuta ocupacional, mas ao invés de me elucidar sobre as regras, ainda me disse que é assim que se ganha experiência e que a rua é um bom lugar para aprendermos. Uns anos depois soube que existem procedimentos e cuidados a ter em conta.

Esse dia foi muito importante. Trouxe-me mais uma vez à realidade. Senti que afinal tudo tinha mudado. Me vi no meio da selva. Me senti muito frágil e resolvi que tinha que começar a resolver a minha vida. Procurei a minha médica e perguntei-lhe quando teria alta. Respondeu-me que dentro de um mês. Que intestinos e bexiga estavam controlados, que já tinha Produtos de Apoio e que era só esperar que minha tensão estabilizasse.

Perante esses dados e por não aguentar mais aquela angustiante incerteza que não me deixava o pensamento sobre o meu futuro, um único segundo, contatei um dos meus ex-patrões. Expus-lhe a minha situação, desabafei sobre os meus medos, mostrei-lhe minhas limitações e perguntei-lhe se haveria alguma hipótese de voltar a trabalhar no mesmo emprego que tinha antes do acidente. Disse-me na hora que sim, que seria um prazer receber-me e que nada mudaria. Continuaria a comandar o Restaurante.

Não tenho palavras para descrever o que senti. Foi um alívio ter ouvido aquelas palavras. Apeteceu-me gritar de alegria. Afinal, ali estava uma solução fantástica para a minha vida. Nada de ser despejado numa instituição. A partir de então, estava desejoso de ter alta. Não via a hora de sair do centro médico. Parece que todos os meus problemas tinham terminado. Eu já conhecia o restaurante, não tinha noção sobre acessibilidade e ,por isso, nem sequer foi uma preocupação, mas sabia que a cadeira de rodas circulava relativamente bem por todo o espaço e isso bastava-me.

No ano do meu acidente (1991), não havia informação nenhuma sobre nossos direitos, apoios... no caso da acessibilidade, não me passava pela cabeça que existia uma lei, regras e rampas, o que sabia e tinha bem presente, era que nada de esperar por facilidades, se não há rampa, pega-se ao colo e ou junta-se uns voluntários e resolve-se a questão. O que sabia era que isso era o certo e normal. Falei sobre acessibilidade, mas o mesmo acontecia com outros temas. Não esperávamos e nem exigíamos nada. Única certeza que existia era a de que nós é que tínhamos que ultrapassar os obstáculos. Como? Essa questão era a única que se punha. Certeza era só uma. Ultrapassá-lo e ponto final.

O dia da alta chegou. Junto com a alegria, existia um misto de incerteza. Ao chegar ao restaurante onde trabalharia e também iria viver, tive uma sensação de alívio muito grande. Fui muito bem recebido por todos os empregados. Senti-me em casa e cheio de forças para continuar a vida. Senti como recomeçar uma nova vida. Estava muito feliz e agradecido por uma nova oportunidade. Nem sequer pensei em dificuldades.

No dia seguinte, tive uma reunião com meus dois patrões e me é comunicado que iria exercer as mesmas funções. Responsável pelo restaurante, mas não receberia ordenado algum. Trabalharia em troca da alimentação, estadia e também pagariam o ordenado do meu auxiliar. Aceitei e exerci minha atividade durante 7 anos. Foi quando tive minha segunda escara, que me deixou em uma cama durante 3 ininterruptos anos.

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