Mãe?
Publicado em julho de 2010
Impossível ficar indiferente ao choro, palavras imperceptíveis em voz alta, e aparente sofrimento, vindas de um rapaz, sentado numa cadeira de rodas, que chegava à clínica de fisioterapia, acompanhado por uma senhora que a todo o custo e debruçando-se sobre ele o tentava silenciar.
Fiquei com dúvidas se seria sua Mãe e associei aquele desconforto a sua possível doença. Muitos portadores de AVC, por exemplo, choram com muita facilidade e frequência, e em alguns casos, também não conseguem articular as palavras.
Imediatamente saiu do gabinete uma fisiatra que tratando-o pelo nome próprio, cumprimentou-o e muito carinhosamente, ao mesmo tempo que lhe fazia perguntas, corria com as mãos o seu tronco, onde ele tentava indicar o que lhe doía.
A senhora que o acompanhava começou sem parar a dizer que ele tinha tirado o dia para aborrecê-la, que doutora não ligasse, que veio o caminho todo a enchê-la de nervos, que aquilo eram mimos e virou-se de frente para a cadeira de rodas, num tom ameaçador e muito alto gritava que ele estava a envergonhá-la, se não tinha vergonha daquelas birras, que nunca mais saía com ele, que ela sabia bem do que ele precisava…Uma cena horrível e desumana.
De repente, o rapaz deixou de chorar e médica dizia: “vês, tinhas razão! Afinal estás com uma ferida infectada nas costas que o colete te criou, por estar mal posto. Vamos já tratar disso.
Carinhosamente, o rapaz, com sons, e à sua maneira, mostrava-lhe o seu agradecimento. Levaram-no para o gabinete da médica. Ao saírem, sua acompanhante ainda continuava muito agressiva com ele, embora o rapaz já não fizesse barulho algum.
Quando foi minha vez de ser consultado, confrontei a médica do porquê de ela não chamar a atenção da senhora, porque ela não poderia tratá-lo daquela maneira.
Disse-me que ele chorava porque usa um colete em volta do abdomen (para corrigir não sei o que), colete esse que é feito de um material duro, e, ao ser colocado de forma incorreta, ele começou a feri-lo, e assim continuaria se não fosse corrigido o mau posicionamento.
Adiantou também que conhecem bem a família dele, e se ela a confrontasse, certamente que nunca mais traria o filho a qualquer tratamento, e seria bem pior para ele.
Perante isto o que pensar ou fazer? Eu não soube.





