Mara Gabrilli

Avenida Paulista, um encontro de mundos

Publicado em dezembro de 2010

Falar da Paulista é falar de universos. Em cada pedaço dela é possível encontrar um mundo diferente. Costumo dizer que a Paulista é uma fatia da cidade, com todos os serviços e tipos de pessoas em um só lugar. Lá se concentram hospitais, escolas, faculdades, museus, empresas, bancos, bares... Cores. Sabores. Cheiro de gente diferente. Não é difícil flagrar por suas entranhas um executivo engravatado passando ao lado de um garoto de moicano. Eles se olham e partem. Sem  julgamentos, sem dar importância a diferenças sociais e ideológicas. Eles vivem diferentemente, mas coexistem pacificamente. Em uma verdadeira avenida de rimas reais. Da acessibilidade com a diversidade. Da deficiência com a eficiência.
 
Em 2007, depois da reforma que a tornou acessível a qualquer cidadão, a Paulista também tornou-se um exemplo de mobilidade urbana, respeito e inclusão. Era o que faltava para a avenida mais paulista de Sampa. Afinal, foi ela a primeira via pública da cidade, em 1909, a ser asfaltada com material importado. Tinha de ser a primeira a seguir os padrões de acessibilidade de uma metrópole de primeiro mundo. Definitivamente, uma Paulista vanguardista.
 
A mudança mais significativa da avenida foi a troca do mosaico português, um piso sem nivelamento que atrapalhava o passeio de muita gente. O piso antigo foi trocado pelas placas de concreto moldadas in loco, um material que não apresenta desníveis, é liso, antiderrapante e sem nenhum tipo de interferência. Além disso, a reforma também contemplou a acessibilidade para as pessoas com deficiência visual, com a instalação de pisos podotáteis de alerta e direcional.
 
Hoje, caminhar por esta Paulista multifacetada é mais confortável, seguro e agradável. Além de acessos, a avenida ganhou 43 floreiras, 1432 gradis de segurança e 194 lixeiras. As travessias de pedestres e os pontos de ônibus também foram ampliados. Toda esta reforma custou R$ 8 milhões aos cofres da Prefeitura de São PauloSite externo., o que significa que nós custeamos a transformação da principal avenida do País.
 
Agora, a Paulista dos paulistas, nordestinos, sulistas, empresários, baladeiros, e qualquer outro brasileiro - ou cidadão do mundo - é também dos cadeirantes, cegos, idosos, anões e gigantes. Ali, a diversidade realmente se torna visível, real. Palpável.
 
Para mostrar a minha gratidão por esta avenida que abraça a todos, criei a Cartilha Olhe a Paulista - avenida universal, que traz dicas de conservação da via e informações sobre este berço gigante. O material está disponível em meu portalSite externo. para qualquer cidadão que queira ter acesso às informações. E claro, assim como a avenida, a cartilha é acessível às pessoas com deficiência.
 
Mais importante do que contemplar tudo que a avenida tem a oferecer hoje, é manter a acessibilidade do local ao longo dos anos. É preciso conscientizar as pessoas sobre a importância de manter a avenida conservada e alertar as concessionárias sobre as intervenções no local, que devem sempre seguir as especificações técnicas da calçada. Ou seja, mexeu arrumou! E da forma correta!
 
Tornar a Paulista acessível para toda população não foi uma tarefa fácil. Além de técnico, foi um trabalho de conscientização, de olhar e de reflexão. É preciso entender a importância da acessibilidade para investir nela. Nós conseguimos mexer com o olhar de muita gente, principalmente, das autoridades, que passaram a planejar de maneira mais inclusiva, respeitando a diversidade humana.
 
Além da cartilha, no ano passado, nós criamos o cargo da Guardiã da Paulista, uma espécie de fiscal da acessibilidade encarregada de conscientizar os comerciantes, empresários e moradores da avenida sobre a importância de respeitar os acessos. A Julie Nakayama, uma jovem cadeirante, cheia de vida e engajada com a causa desde criança ficou encarregada da função. Ela conseguiu mudar a concepção de muita gente sobre o assunto.Tenho certeza que ao sensibilizarmos as pessoas conseguimos também conscientizá-las.
 
Não deixe que tudo o que já foi construído até agora seja destruído. O trabalho mais difícil, aquele de mudança de postura, de visão, foi realizado. Cabe agora mantermos a acessibilidade da avenida, cobrar pelo o que pode ser melhorado e, principalmente, fiscalizarmos e repreendermos quem ainda não entendeu que olhar para a Paulista é respeitar a si mesmo. Respeite você, seja um cidadão paulista.

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Perfil

Foto da(o) colunista Mara Gabrilli

Mara Gabrilli é psicóloga e publicitária, 42 anos, ficou tetraplégica por conta de um acidente de carro em 1994. Em 1997, fundou a Ong Projeto Próximo Passo, hoje Instituto Mara Gabrilli, que apoia atletas com deficiência, promove o Desenho Universal, fomenta pesquisas científicas para cura de paralisias e é parceiro oficial do Vida Mais Livre.

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