Já consigo descascar uma laranja
Publicado em maio de 2013
Já consigo descascar uma laranja. Alguns de vocês deverão estar a pensar que não devem estar a ler bem, mas estão, é isso mesmo. Eu já consigo descascar uma laranja. Nem imaginam o meu contentamento! Mas tenho que confessar que não o consigo fazer com todas as laranjas. Existem umas peças que têm a casca muito fininha e colada aos gomos, essas não eu não consigo descascar. É que a técnica que utilizo para as descascar, consiste em introduzir os dedos indicador e médio da mão direita, dedos esses que estão sempre em posição ereta, e com mais ou menos dificuldade a casca vai saindo. Se for o caso da laranja ter a casca fininha, dedos não têm espaço para penetrar entre os gomos e a casca, e nesse caso saem, pequeníssimas quantidades de casca, e o interior da laranja começa a desfazer-se e torna-se complicado continuar.
Mas alguns devem estar a questionar do porquê desta euforia toda por conseguir fazer uma coisa tão simples e, aparentemente, fácil. Estou muito feliz porque a minha vida é feita de pequenos sucessos, como este. Estas pequenas vitórias me dão força para continuar todos os dias a tentar mais e mais. São estas coisas que alimentam meu sonho. Sinto-as como se de um grande feito se tratasse e também como recompensa do meu esforço diário por não me acomodar, de querer e tentar sempre mais.
Aparentemente o fato de conseguir descascar uma laranja não muda nada na minha vida. Muda, e muito. Dá-me confiança, até orgulho, e além de tudo, imenso prazer por poder saborear uma laranja descascada por mim e não ter que esperar que todos terminem a sua refeição para lhes pedir que me a descasquem, ou então, evitar de pedir para não dar trabalho. Tenho certeza que mais vitórias virão, interessa é não perder a esperança e continuar a trabalhar dia após dia para manter o sonho vivo. Tenho a certeza que a recompensa chegará quando menos esperar, como foi neste caso.
Na imagem, deixo um exemplo da técnica que utilizo para descascar a laranja. Consiste em colocar um pano, ou um guardanapo de papel por baixo do fruto, mão esquerda a segurar a laranja com firmeza, e dedos indicador e médio da mão direita a perfurarem a casca. É claro que cansa bastante, e demora algum tempo, mas a recompensa final vale o sacrifício.

Oscar Pistorius: A queda de um herói
Publicado em março de 2013
Oscar Pistorius voltou a ser manchete no mundo inteiro. Infelizmente, desta vez não pelos melhores motivos, mas por ser suspeito de ter assassinado cruelmente a sua jovem e bela namorada Reeva Steenkamp. Seu julgamento continuará no início do mês de junho, quando enfrentará uma acusação de homicídio premeditado. Para os menos familiarizados com a questão da deficiência, relembro que Oscar Pistorius nasceu sem o osso do perônio, fato que fez com que as duas pernas lhe fossem amputadas ainda quando bebê. Ele é, talvez, o mais categorizado paratleta da atualidade, sendo inclusive apelidado de "Blade Runner" (corredor lâmina) e como o "homem mais rápido sem pernas".
A carreira desportiva deste atleta sul-africano, com deficiência, é recheada de grandes conquistas e de proezas incríveis, alcançando o seu auge nos últimos Jogos Olímpicos, em Londres, quando se tornou o primeiro atleta paralímpico a disputar os Jogos em igualdade de circunstâncias com os outros atletas sem deficiência, tendo mesmo alcançado a classificação para as semi-finais dos 400 metros rasos.
Grande herói para muitos de nós, o nosso campeão, aquele que nos representava e nos deixava cheios de orgulho, de repente virou um monstro? Como entender? O que pensar? Como foi possível este nosso ídolo, nosso exemplo, e que tanta visibilidade deu à causa da deficiência ser capaz de praticar um ato tão cruel? Tanta pergunta e respostas poucas, mas tudo isto para destacar que esta estrela e super campeão é um ser humano como todos os outros, única diferença é a sua deficiência.
Ao contrário do que muita boa gente pensa, nós pessoas com deficiência continuamos a ser os mesmos, não é a nossa deficiência que nos torna melhores ou piores, o caráter, personalidade, princípios e restantes valores sociais continuam a ser os mesmos, independentemente de sermos ou não, pessoas com deficiência. Quanto ao homem Oscar Pistorius, desejo que a verdade seja revelada e que a justiça seja feita.
Ser ou não ser deficiente
Publicado em janeiro de 2013
Será que sou deficiente? Ou serei portador de uma deficiência? Serei tetraplégico? Mas ouvi dizer que afinal sou uma “pessoa com deficiência”…Que confusão! Afinal, por que resolveram começar a confundir-me? É isso mesmo. Estou confuso e nem eu sei bem o que sou, o que tenho, como sou. A que pontos isto chegou! Até eu próprio fico na dúvida de como me tratar. Ridículo não acham? E tudo isso por quê? Porque as mentes ditas iluminadas, de repente, resolveram achar que todos os termos utilizados até agora para referir-se a nós eram inapropriados. Mas por quê essa implicância logo agora?
Alguns afirmam que deficiente é um termo pejorativo. Portador de deficiência conota-nos com incapacidade, etc. Segundo o dicionário Priberan de língua portuguesa, “deficiente” é: “Em que há deficiência” e “deficiência” significa: “Imperfeição, falta, lacuna”. Como ficamos? Existe assim tanta diferença? Ainda por cima, segundo os que decidem por nós, o termo mais adequado e aconselhado a ser usado a partir de agora, é “pessoa com deficiência”. Mas qual a diferença entre ser alguém que tem uma deficiência (significado de deficiente) e uma pessoa com imperfeição, lacuna e falta (significado de deficiência)? Ou ainda uma pessoa “com” deficiência e “portadora” de deficiência? Até entendo que se deva tentar uniformizar o termo por várias razões, e também que os tempos evoluíram e os termos como “inválido” e “paralítico” estão mais que ultrapassados. Mas também não precisam exagerar.
Porque não deixar um pouco dessa preocupação de lado e virarem-se para os nossos reais problemas? Dava jeito. Até recentemente a Presidente do Brasil foi interrompida e corrigida durante um discurso, onde se dirigiu a nós como “portadores” de deficiência. Imediatamente alguém na plateia fez questão de afirmar que esse termo nem pensar. A Sra. fez-lhe a vontade, tipo: pronto, está bem! Se é tão importante assim, eu passarei a tratar-vos por “pessoas com deficiência”…
Aproveito e deixo um conselho aos que tanto se ofendem com algumas definições. A maioria das nossas associações têm no nome a palavra “deficientes”. Toca a obrigá-los a mudar de nome. Também temos a “Tabela Nacional de Incapacidades” e tantos outros casos idênticos. Isso também tem que mudar e já.
Quanto a mim, não autorizei ninguém a decidir por mim e nem tenciono esconder ou camuflar a minha deficiência, por isso, podem continuar a referir-se a mim como bem entenderem, mas já agora aviso que prefiro que me tratem pelo nome, pode ser? Pior é se a moda pega. Qualquer dia, os ricos exigem ser tratados por pessoas com uma riqueza e não portadores de uma riqueza, os portadores de um dom, pessoas com um dom…
Aproveite para dar a sua opinião em nosso Fórum: "Como se referir às pessoas com deficiência?"
A solidariedade dos portugueses
Publicado em novembro de 2012
Todos os olhares se dirigem na minha direção e imediatamente alguém se levanta e pergunta: Precisa de alguma coisa? Sim, respondo eu, um copo de água por favor! Quer fresca ou natural? Pode ser natural. Muito obrigado.
Esta troca de palavras surge sempre que me dirijo a um recipiente de água numa qualquer sala de espera. Tento disfarçar, olhar de longe para averiguar se consigo beber água sem ajuda de ninguém, mas nem sempre consigo chegar a uma conclusão, e lá vou até o recipiente. Isto a propósito da boa vontade e disponibilidade para ajudar, que as pessoas anônimas sempre demonstraram para comigo.
O mesmo acontece ao tentar apanhar uma daquelas revistas/jornais espalhados pelas mesas das salas de espera. Gosto de tentar, mas antes que comece, de imediato aparece alguém e me entrega a revista. É que as manobras que tenho que fazer para tentar segurar na revista, dão nas vistas. Geralmente seguro-as com a boca para não me desequilibrar, e só depois as coloco no colo. Demora, mas vai.
O ideal seria perguntarem se preciso de ajuda, mas como geralmente se levantam de imediato, evito dizer que vou tentar fazer sozinho e se não o conseguir pedirei ajuda. Sinto que deixar alguèm ficar em pé à espera que isso aconteça, pode ser mal interpretado e por isso aceito de imediato a oferta. Outro caso é quando vou abrir a minha carteira para tirar algo. Começo por pegar o fecho com a boca e toca a corrê-lo, logo quem estiver por perto tenta me ajudar. Neste caso costumo agradecer e dizer que consigo.
No meu trabalho (trabalho sozinho), tenho outro exemplo lindo de solidariedade e entreajuda. Sempre tenho alguém que me ajuda com toda a naturalidade do mundo, mas neste caso, como sei bem o que consigo ou não fazer, costumo pedir. Como estes exemplos, tenho muitos mais.
Isto para realçar que sempre senti o maior apoio, carinho, solidariedade e respeito pela parte dos portugueses. Nunca tive um episódio pior, discriminatório ou algo parecido. O mesmo não acontece com o Estado. Esse sim nos discrimina sem dúvida nenhuma. Mas isso é outra conversa. A todos os anônimos e conhecidos que sempre me apoiaram, muito obrigado.
Ser dependente
Publicado em outubro de 2012
- Ser dependente é não ter vida própria. É ser uma marionete nas mãos de muitos, ser como uma pena levada pelo vento sem perguntar se o deseja e em que direção, é dizer sim quando quero dizer não, é aceitar com um sorriso o que tenho vontade de gritar bem alto que não quero, é voar sob o comando dos outros e fazer de conta que gosta de todas as direções e destinos, é ser gente que se sente ninguém, é ser gente sem comando;
- Ser dependente é estar com a cadeira de rodas num lugar, mas vindo do nada, alguém entende que deverias ir para outro lugar, porque naquele local vais atrapalhar não sei o quê. Fazes-lhes a vontade, mas logo aparecem outras opiniões…chega-te mais para aqui, olha acho que ficas melhor ali, vê lá se não seria melhor além…e antes que consigas argumentar e abrir a boca, ali estás tu, tipo deixa-me não mexer, e tentar passar despercebido. De tanto ouvires, e veres pessoas agirem assim, acabas por interiorizar que tu e a cadeira ocupam mesmo muito espaço, e incomodam ao ponto de sempre que chegas a um lugar onde exista mais pessoas, tipo sala, cozinha, etc., tens logo a tendência de ir procurar um cantinho onde estaciones, passes despercebido, e não corras o risco de incomodar ninguém;
- Ser dependente é estar cheio de sede porque evitas dar trabalho, e quando não suportas mais essa sede, ao pedires um copo de água, dão-te o copo de água e viram-te as costas sem perguntar se queres mais;
- Ser dependente é sentarem-te na cadeira de rodas e não terem o cuidado de, por iniciativa própria, te ajeitar a roupa, posicionarem corretamente, disfarçarem o tubo do saco coletor na roupa, ajeitarem o cabelo, etc;
- Ser dependente é acordares de noite cheio de frio, e ou calor, e não poderes chamar ninguém para te por confortável;
- Ser dependente é teres que comer a comida preparada no teu prato, ao gosto de quem a prepara, e tentares comê-la assim mesmo, esteja tempero ou não como desejas, peles e gorduras se mantenham na carne e peixe…
- Ser dependente é serem os outros a preparar a temperatura da água do teu banho como se fosse para eles. Se reclamas que está muito quente ou muito fria, vem logo a resposta que és esquisito que para eles está boa;
- Ser dependente é aceitar o penteado que nos é feito, mesmo quando não está à nossa vontade;
- Ser dependente é ouvir constantemente dizerem que somos uma cruz, que têm costas estragadas por nossa culpa, que somos um fardo, que não podem sair por nossa causa, que vida deles agora é a nossa, que vai ser de nós sem eles;
- Ser dependente é ver muita gente que convive contigo diariamente a deixar cadeiras, sapatos, tapetes enrolados, vassouras e outros objetos no meio dos teus trajetos, e, devido a isso, teres que ficar horas impedido de te mexeres;
- Ser dependente é não teres o prazer de tomar o teu banho, fazeres tua higiene, e se pedes para lavar melhor esta ou aquela parte do corpo, te responderem que já fizeram, e tu aceitares mesmo não estando;
- Ser dependente é nunca poder lavar com água corrente as partes do rabiosque (nádegas) que ficam em cima da cadeira do banho, e ficar sempre com a sensação que ficamos sujos;
- Ser dependente é cortarem-te as unhas quando querem, aceitares resultado, e nunca dar um “ui que está a doer”. Bem tento roer as das mãos para evitar dar trabalho, mas não consigo;
- Ser dependente é andar com a barba mal feita, e ter sempre aquelas colônias de cabelos que parecem ilhas no rosto;
- Ser dependente é ficar horas e dias fechado porque não consegues abrir a porta para circulares à vontade;
- Ser dependente é ver os outros a falarem de assuntos que te dizem respeito, dirigindo-se a quem está ao teu lado, como se tu não estivesses ali;
- Ser dependente é no meio de uma discussão virarem-te as costas e fecharem a porta, e ficares impossibilitado de te defenderes, ou ainda, desligarem-te a corrente da cadeira de rodas elétrica e teres que ficar parado e indefeso no lugar onde estás;
- Ser dependente é no meio de um momento de pressão, teres uma vontade imensa de sair para aliviares a cabeça, te afastares por uns momentos e por ideias em dia, mas não o poderes fazer;
- Ser dependente é não teres privacidade, outros usarem teus documentos, carteira, cartão de banco e nunca te deixarem sozinho quando mais o desejas;
- Ser dependente é acordares com pernilongos a chatearem-te, e pedires baixinho para que encham a barriguinha deles picando-te onde não sentes o corpo e te deixem em paz;
- Ser dependente é ouvir a sirene dos carros dos bombeiros, os helicópteros a sobrevoar a tua casa, sentires o cheiro do fumo e aperceberes-te que existe um incêndio perto de ti e estás acamado e sozinho em casa sem nada poderes fazer;
- Ser dependente é estares chateado com alguém que te humilhou e mesmo assim teres que lhe pedir um favor a seguir;
- Ser dependente é viveres tudo isto mesmo depois de saberem do que necessitas, gostas, etc.
E por fim, ser dependente é conseguir arranjar maneira de viver da melhor maneira perante tanta adversidade sem entrar em desespero.





