A poeira que o Autismo ajudou a retirar
Publicado em abril de 2013
Quando a minha filha mais nova nasceu eu tive de me refazer. Quando um filho nasce, também nasce – de novo se preciso – uma mãe. A gente renasce sempre, infelizes aqueles que não se fazem e refazem a cada novo evento, a cada novo dia. Não tem nada pior do que o mesmo do mesmo. Nós e nossas certezas...
Belo aprendizado eu tive. Me achava o máximo da tolerância, preconceito é coisa de gente ignorante, de quem não tem humanidade, eu pensava. Mas quando a sombra da deficiência da minha filha começou a me meter medo, o pavor veio de onde? Eu estava realmente apavorada e era por medo da rejeição. Agora, quem saía do padrão era eu! Minha vida sob os olhares.
Claro, proteger minha menininha era instinto, amor de mãe é infinitamente superior a orgulho ferido, mas lá no fundo, eu calava, acuava, escondia sob o pó aquele bordão que ridicularizei por anos: “o que vão dizer?” Me envergonhar diante dos olhares quando minha filha gritava e se debatia nos shoppings da vida... Por que??? Qual a razão de não querer fugir ao padrão imposto?
Hoje, percebo o quanto renasci, o quanto cresci, o quanto aprendi que ainda tenho muito a aprender. Foi preciso muita coragem para olhar no espelho e enxergar estas mazelas, difícil confessá-las! Porém, hoje me sinto até mesmo grata com o infeliz que passa pensando que não sei educar, quanto sou grata à minha menina por não se deixar moldar e me dizer que existem tantas formas de dizer. Por fim, sou grata ao Autismo, não pelo que ele faz com minha filha, mas pelo que fez comigo, quebrando paradigmas cristalizados e transparentes, me dando a chance de me refazer.
Às vezes, quando minha filha se comporta diferente, quando ela empurra, ou se intromete, nos momentos de alegria intensa quando seu corpo se retorce e as mãozinhas se agitam, todos os olhares se voltam: que esquisito, devem pensar. Olho para os olhares e devolvo com um sorriso calmo: esquisito não, Autismo! Expressão diferente e, não menos bela, do que essa sua postura ereta, seu comportamento normal. Minha filha tem um jeito diferente de ser, um jeito de quem não busca apenas ter.
Os rótulos feio, bonito, inadequado, esquisito, estranho, diferente são dados pela lente que está nos olhos do expectador. Minha filha é livre na sua expressão, ela não pretende chocar, ela não quer ofender, ela é como é, corajosa e livre como uma borboleta.
Aprendendo tudo isso. Sigo me completando, sem julgar quem ainda não está disposto a aprender, procurando ainda sob o pó, os restos dos preconceitos que ainda teimam em se esconder. Será que é por me limpar assim que hoje vejo cores que antes não via?
Da diferença entre ser e agir
Publicado em fevereiro de 2013
Gosto de observar a vida; o ser humano sempre me parece instigante. Nós somos incríveis em nossa capacidade de alternar estados emocionais e frequentemente confrontamos os nossos próprios valores e crenças quando agimos por impulso, de forma a contradizer tudo o que pensamos, ou achamos que pensamos. A meiga senhora que quando acuada saca de uma arma e dispara, o gentil rapaz que desafiado no trânsito faz manobras bruscas para exibir-se ou para afirmar para si mesmo aquilo que a armadura em forma de carro permite, mas que ele disfarça no contexto social.
É assim que, de repente, as pessoas magoam dizendo coisas impensadas. É assim que a gente se decepciona quando alguém se mostra diferente do modelo idealizado e construído por nós mesmos na superficialidade de relações, que não nos permitem ver o indivíduo tal qual ele verdadeiramente é, mas de acordo com a imagem que ele elaborou muitas vezes sob influência da mídia, da moda, ou do interesse do momento.
Vamos assim construindo modelos vazios e nos afastando da real beleza de viajar por meio de uma relação incrível entre pessoas que apenas são o que são, sem obrigações maiores do que a de mostrarem justamente suas contradições, suas peculiaridades, suas diferenças. Afinal, se aprendermos a conviver com o que o outro traz de diferente, aquilo que for "igual", vai facilmente aparecer pra sedimentar uma base real de convivência.
É no padrão normal que vai se impondo às nossas vidas, que esvaziamos a riqueza de conviver, aprender e se encantar com a riqueza do diverso.
É possível entender, conviver e gostar de quem pensa diferente da gente. Mesmo aquelas pessoas que, vez ou outra, com atitudes inusitadas, nos surpreendem com o que não enxergamos antes que eram.
Às vezes, temos que separar o que é atitude, o que é pessoa. Pois estamos vivendo e aprendendo a viver ao mesmo tempo. Neste aprendizado erramos e não podemos fazer da pessoa o seu erro. O jovem não deixou de ser gentil quando desceu do carro. Por mais que ele precise aprender a reconhecer sua dose de agressividade e trabalhá-la pra que isso não seja canalizado para o trânsito, ainda assim, ele não pode ser resumido àquele momento.
Somos mesmo este misto de contradições, o conjunto do que faço me define, quando visto no contexto de tempo e frequência. O que faço de forma isolada, os rompantes, os impulsos podem revelar algo que precisa ser processado, melhorado.
É preciso separar por isso a atitude da pessoa com o que é a pessoa. Minha filha com autismo me ensina isso a cada dia, quando seu comportamento (o autismo é uma síndrome que afeta o comportamento) difere claramente do que ela é. Nestes momentos, preciso orientar mostrando que o que ela está fazendo é feio, embora ela seja linda. Que aquela atitude não é legal, mas que ela é uma garotinha muito legal.
Dessa forma, vamos preservando as pessoas em sua auto-estima, vamos e orientando - e reforçando pelo exemplo - a modificação daquilo que não traz bem estar e felicidade, o que pode ser modificado para o seu bem e para o bem do grupo com quem convive.
Se assumirmos as nossas diferenças ao invés de mascará-las e pararmos de tentar uniformizar todo mundo no padrão normal, fica mais fácil expressar o que realmente somos e aceitar nossos erros como parte do processo que é a vida. Fica mais fácil entender pessoas, educar indivíduos, valorizar o diverso e conviver em paz.
Pra ser livre
Publicado em dezembro de 2012
Não ter preconceito é ser livre. Preconceitos são correntes que nos ligam a paradigmas e a convenções estabelecidas não sei quando, não sei por que.
Se sou senhor de minhas escolhas, não preciso advogar pelo pensamento de uma outra pessoa que manda apenas em quem tem preguiça de pensar.
De repente, encontro indivíduos por aí levantando bandeiras do que nem sabem o que significam (se é que tem algum significado!). Separatismo, exclusivismo... Só quem segue minha religião, quem torce pelo meu time, quem nasceu no meu país! Só os que são jovens ou apenas os brancos, talvez sejam só os negros ("o que essa branquela tá querendo contigo", ouvi outro dia) e, de repente, estamos nós separados e fracos em nome de uma identidade que nos deforma, porque o que tem que nos tornar belos é justamente a nossa humanidade, caldeirão comum que nos integra, nos une e nos fortalece.
As fronteiras podem ser culturais e devem existir pra preservar a história escrita dos que vieram antes de nós, naquilo que acertaram seguimos, no que "erraram", aprendemos. Mas as fronteiras culturais não precisam do valor: "melhor ou pior que o seu", nem precisam excluir ninguém, podem apenas demarcar. A própria cultura, construtora de pontes por excelência, integra o diferente também, pois cada tempo tem sua marca, cada povo seu próprio valor.
Para os que não desejam voar, aprisionem-se, não faltam por aí "verdades" pregadas como estacas, absolutas em suas posições, pesadas e vazias.
Eu sigo por aqui leve, vou aprendendo a cada dia a me livrar dos preconceitos que não me acrescentam nada, não me ensinam nada, não me trazem paz. Sigo entendendo cada vez mais, que ser gente é ser diferente, simplificando tudo que não me cabe julgar.
Se as relações humanas já são tão intrincadas e encantadoras, o fato de manter minha mente limpa do que está pré-concebido, deixa muito espaço para que eu construa a minha verdade interna, sempre relativizada pela minha humanidade e povoe com meus próprios valores meu mundo interior.
Quanto menos raízes eu tiver mais alto serei capaz de voar.
Tire o pé do passado
Publicado em outubro de 2012
A raiz do preconceito e da exclusão social das pessoas com deficiência está de certa forma ligada a uma cultura que se originou em uma época em que os homens precisavam caçar, plantar, construir suas casas, arar seus terrenos, defender sua propriedade, conquistar com suor e muito esforço sua subsistência. Foram séculos de formação de uma sociedade que atribuía a seus indivíduos o valor de sua utilidade. Desta forma, idosos, doentes, pessoas com deficiência eram considerados inúteis para o grupo maior, não era possível dispensar a eles o tempo e a dedicação que precisava ser empregada na luta pela sobrevivência.
Neste contexto, quem não era útil era um peso, e por muito tempo esta forma de atribuir valor às pessoas foi se incorporando à cultura geral. À medida que pessoas do grupo social puderam ser liberadas do trabalho mais pesado, graças ao lento avanço das tecnologias, puderam-se incorporar ações de acolhimento de forma assistencial, ligadas primeiramente à benemerência dos grupos religiosos e assim cuidar dos “incapazes” era um ato de caridade, de bondade.
Muitas foram as mudanças que fizeram aos poucos a substituição dos conceitos de valor de uma pessoa ao longo dos séculos. Olhando para o passado distante é possível ver o quanto melhoramos. Porém, ao olharmos para o presente, constatamos que a tecnologia evoluiu mais que os valores gerais. Estamos a caminho, mas não podemos deixar de refletir e continuar avaliando, mudando e ampliando a nossa visão para além destes aspectos externos que ainda contam tanto.
Quanto vale uma vida? Se é que precisamos atribuir valor a alguém, este valor passa muito mais pelo sentido que a vida traz em si mesma, do que propriamente ao que o indivíduo produz ou expressa. Para dimensionar isso, basta pensar em alguém que você perdeu, que saiu da sua vida levado pela morte. Aquela pessoa que mesmo distante, mesmo ausente da convivência diária, ocupava um lugar na sua rede de relações, era um personagem da sua especial e particular história de vida. Este lugar que agora está vazio e a saudade que te traz, tem o tamanho do valor desta existência que se foi.
Quanto vale uma pessoa e tudo o que ela viveu, aprendeu e tudo o que é capaz de ensinar? Pense nisso quando algum diferente cruzar o seu caminho. Quando sua empresa contratar um “especial” ou sua escola incluir alguém com uma deficiência qualquer e você sentir ainda que de leve, um incômodo diante das novas posturas que terá que assumir, dos novos códigos que terá que aprender para identificar naquela pessoa, o colega, o aluno, o amigo. Alguém que não é nem melhor nem pior, não é mais e nem menos interessante que qualquer outro ser humano que faz parte da sua vida.
Questionar a forma como encaramos as diferenças é uma atitude corajosa. É também crescimento e maturidade e talvez mais que isso, é se conectar a uma onda de mudanças que só nos fará melhores, mais leves e mais flexíveis. Se o fato de se prender a ideias antigas é considerado antiquado, rever atitudes e incorporar novas posturas é mais que ser atual, é ser coerente com a dinâmica de mudanças constantes, é ser gente.
Cada vez mais difícil lidar com o que é difícil
Publicado em setembro de 2012
É estranho pensar que na juventude da minha mãe todo o serviço da casa era feito manualmente. Para a quase totalidade das famílias brasileiras não havia máquina de lavar roupa – ainda não há para muitos – ou qualquer aparelho elétrico que facilitasse a vida das pessoas. Meu avô, em seu armazém, fazia contas de cabeça, pesava e embalava os grãos e os demais produtos que vendia. A vida no campo então! Era muito mais difícil e mesmo com tudo de bom que estas pessoas vivenciaram, não tem como negar que as facilidades da tecnologia são recebidas como alternativas a uma vida menos sofrida e com muito mais qualidade.
Toda essa praticidade impressa em nosso cotidiano pela ampliação do acesso ao desenvolvimento tecnológico vai impregnando a nossa forma de se posicionar frente às demandas da vida. Vivemos a cultura da facilidade, do descartável. Se antes precisávamos cuidar do que tínhamos pelo risco de não conseguir sua substituição ou pela dificuldade em custear o conserto, atualmente, sabemos que, na maioria das vezes, substituir o que quebrou é mais barato e com a vantagem de aquisição de um produto ainda mais moderno.
Passamos a dar menos valor ao esforço do conserto e também ao valor do esforço. Quando alguma coisa difícil se apresenta na nossa vida, nosso ímpeto é se afastar, deixar para depois, procurar uma receita ou um procedimento já padronizado que facilite lidar com o complicado. Grande parte de nós reclama quando ocasionalmente perdemos o controle remoto e temos que levantar da cadeira para trocar o canal da TV!
As famílias das pessoas com deficiência precisam se superar rompendo com todo e qualquer comodismo. Têm que lidar com desafios diários nas situações mais corriqueiras e têm que contar com a colaboração de outras pessoas estranhas à sua realidade que nem sempre estão dispostas a ajudar. Não ter acesso às facilidades faz parte do lidar com o desafio da deficência. Se não nos preocupamos em construir nada, se não nos importamos com aquilo que se quebrou, imagina então quanta dificuldade temos diante de um ser humano que “não funciona” da maneira como estamos acostumados?
Onde passar com a cadeira de rodas, como mostrar alguma coisa a um cego, como me comunicar com o surdo, o que fazer diante do esquizofrênico, como conviver com minha mãe que agora tem Alzheimer, como incluir em uma escola comum o menino que tem Autismo, o que fazer diante de um paralisado cerebral que expressa o que eu não consigo entender?
A maioria dos desafios da nossa moderna época vem da difícil arte da convivência. As facilidades trazidas pela tecnologia não devem entorpecer a nossa capacidade de resiliência. Sob a pena de fracassarmos enquanto comunidade humana, se não aprendermos a conviver com tolerância e respeito, precisamos reconhecer que existem dificuldades para as quais não há manual ou tecnologia que dê jeito. O esforço deve ser nosso, pessoal, individual, na busca das estratégias internas, emocionais, amorosas que teremos que buscar para conviver melhor, para ajudar mais.
Neste mês em que as Paralimpíadas de Londres invadem as nossas manchetes com as lindas histórias de superação de toda ordem, em todos os sentidos que essa expressão pode assumir, cabe uma reflexão sobre o quanto precisamos fortalecer a nossa “musculatura emocional” enfrentando com coragem as dificuldades inerentes à vida, deixando que as facilidades nos sirvam sim, mas não o suficiente para nos moldar, para nos enfraquecer.





