A arte como meio de inclusão
Publicado em setembro de 2012
Assim como a maioria das áreas de conhecimento da humanidade, a arte sofreu e promoveu no último século um volume de rupturas e mudanças nunca antes observado na história. No entanto, enquanto a evolução de muitas ciências direcionou-se para o desenvolvimento de leis e modelos cada vez mais específicos, precisos e controláveis, a arte não só deu continuidade como intensificou sua vocação pela busca do desprendimento das normas e padrões pregados pela antiga academia.
Para trazermos tal reflexão ao nosso cotidiano, basta compararmos o ofício de um analista financeiro preparando um relatório dos resultados de uma empresa, ou de um bacterologista avaliando a melhor composição de antibióticos a ser receitada para seu paciente, com a atividade de um artista construindo uma instalação a ser exposta na bienal de Veneza. Apesar da competência de ambos estar associada a aspectos comuns como conhecimento técnico, raciocínio lógico, capacidade analítica e bom senso, não há dúvida de que a liberdade de ação e as possibilidades de criação são mais amplas para o artista. Da mesma forma, a abertura e a tolerância pelo “diferente” estão mais presentes nas expectativas do público frequentador de mostras do que no conselho de acionistas da empresa ou na família do paciente.
Muito se tem ouvido a expressão “inclusão social” nos debates e projetos destinados à melhoria das condições de vida de pessoas com deficiência. Trata-se de uma filosofia adotada pela Unesco
que defende o convívio de segmentos historicamente excluídos com o restante da sociedade (seja qual for o ambiente; escola, trabalho, lazer) e a participação de ambos no processo de eliminação de barreiras arquitetônicas e atitudinais como formas de se conquistar a igualdade de oportunidades. Em outras palavras, acredita-se, hoje, que o preconceito existente é fruto da desinformação de muitos. Para eliminá-lo, devemos abandonar modelos simplistas como o da “escola especial” ou da oficina abrigada de trabalho.
Ao pensarmos no fazer artístico e suas peculiaridades, podemos rapidamente identificar duas conexões com a causa inclusivista. Primeiramente, seu desprendimento do rigor quanto a paradigmas pré-estabelecidos comentado anteriormente, abre portas àqueles cujo desempenho motor é comprometido por algum tipo de limitação corporal. Para se produzir uma obra de arte de qualidade, o artista não depende, necessariamente, de um traço ou de uma pincelada tão precisos e lineares como os de um projetista industrial. Existe espaço para o gestual, o aparentemente impreciso. Em segundo lugar, o campo das artes pressupõe a exposição, a relação direta entre o artista e seu público. Ao incentivarmos iniciativas artísticas acessíveis a potenciais protagonistas com alguma deficiência, estamos também colaborando para a disseminação de algumas das condições que, como vimos, dão sustentação a qualquer pretensão de se construir uma sociedade inclusiva.
*Este texto foi adaptado de artigo de sua autoria publicado no jornal “Valor Econômico”.
A miopia do modelo segregador de ensino
Publicado em maio de 2012
Recentemente, visitei a escola estadual Clarisse Fecury, situada na periferia de Rio Branco (Acre)
. Ela atende a 611 estudantes, dos quais 27 têm algum tipo de deficiência.
A natural interação entre crianças que, até pouco tempo, eram privadas do convívio social, é inspiradora. Alunos com limitações cognitivas e motoras participam da sala de aula comum e recebem atendimento especializado na própria escola, em horário complementar. As aulas de Libras (Língua Brasileira de Sinais) são frequentadas por todos, não só por crianças surdas. Liderança comunitária, investimento contínuo em formação de educadores e reuniões diárias de planejamento são algumas das estratégias que explicam o êxito da escola na criação de condições genuínas de socialização e aprendizagem.
De acordo com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada pela ONU
em 2006, os países devem assegurar um sistema de educação inclusiva em todos os níveis de ensino. O Brasil, signatário, aprovou uma avançada legislação a respeito, no governo Lula. A diretriz é que toda criança com deficiência, transtorno global de desenvolvimento ou altas habilidades (segmentos tradicionalmente encaminhados para escolas especiais) seja matriculada na rede regular de ensino e estude em classes comuns. O atendimento especializado continua a existir, porém, como um complemento realizado no contraturno do ensino regular.
Apesar de coerente com o pensamento contemporâneo sobre pedagogia e direitos humanos, temos observado uma série de grupos que resistem a esse modelo. Em resumo, argumentam que os educadores não estão preparados, as escolas não têm infraestrutura adequada e as crianças com deficiência não conseguirão acompanhar o desenvolvimento dos outros alunos, podendo até atrapalhá-los.
Defendem, portanto, a permanência dessas crianças na escola especial onde, duvidosamente, seriam melhor acolhidos e teriam maiores possibilidades de aprendizagem. Para quem nunca teve a oportunidade de refletir sobre o assunto, tais argumentos podem soar razoáveis. No entanto, em primeiro lugar, não é de hoje que as pesquisas sobre o processo de aprendizagem indicam que toda criança aprende, sejam quais forem suas particularidades intelectuais, sensoriais e físicas. Esse processo é singular e significativamente estimulado pela interação com pessoas diferentes.
Em segundo lugar, não há dúvida de que a construção de uma rede de ensino inclusiva é extremamente desafiadora. Entre outras coisas, exige comprometimento e disposição para mudanças estruturais. Mas projetos como o do Acre transcendem a teoria e oferecem respostas objetivas ao cômodo discurso do despreparo. É bom lembrar que a exclusão das pessoas com deficiência do mercado de trabalho é, quase sempre, fruto de baixa escolaridade e da inexperiência de convívio da maioria da população com esse segmento.
Além de ser um direito, a educação inclusiva é uma resposta inteligente às demandas do mundo contemporâneo. Incentiva uma pedagogia não homogeneizadora e desenvolve competências interpessoais. A sala de aula deveria espelhar a diversidade humana, não escondê-la.
Claro que isso gera novas tensões e conflitos, mas também estimula as habilidades morais para a convivência democrática. O resultado final, desfocado pela miopia de alguns, é uma educação melhor para todos.
*Artigo originalmente publicado pelo Jornal Folha de S. Paulo em 12/04/2012
A democracia dos estádios
Publicado em fevereiro de 2012
As relações entre futebol e inclusão são diversas. A começar pela questão arquitetônica, a mais óbvia delas, temos observado certos avanços na adequação de alguns estádios para o recebimento de torcedores com limitações motoras. Posso citar como exemplos o Morumbi e o Pacaembu, ambos em São Paulo
, cujas facilidades de estacionamento e acomodação nas arquibancadas têm sido elogiadas por parte dos frequentadores assíduos. Apesar de essas não serem ainda características comuns do conjunto das arenas brasileiras, temos boas perspectivas de melhorias a médio prazo, tendo em vista as reformas previstas para a Copa de 2014, que deverão respeitar normas de acessibilidade exigidas pela Fifa.
Ao pensar em questões mais complexas, ligadas às nossas atitudes, me parece que o futebol espelha nossas diferenças e ambiguidades. Celebramos o futebol como um esporte democrático, na medida em que congrega diferentes segmentos sociais, no gramado e na torcida. Quem já praticou sabe muito bem que, na hora do jogo, tanto faz o sobrenome, a cor da pele, o peso, o sexo, etc. Será valorizado aquele que tiver habilidade nos pés.
Mas será que essa leitura traduz integralmente a realidade? Como reagimos quando testemunhamos manifestações explícitas de racismo, homofobia e violência? Muitos dão risada, outros se omitem e, por sorte, alguns protestam. Afinal, a beleza do futebol está na sua vocação de aproximar pessoas, reduzir distâncias sociais e simbolizar nossa capacidade criativa. Irreverência, espontaneidade e bom humor fazem parte da graça desse esporte e são muito bem-vindos, desde que não o convertam em instrumento de discriminação e exclusão.
P.S.: Para quem passar por São Paulo, recomendo uma visita ao Museu do Futebol
(Pça. Charles Miller, s/nº, estádio do Pacaembu). Além de atender a questões de acessibilidade arquitetônica, explora a linguagem multimídia e impressiona pela qualidade da montagem. Imperdível.
*Artigo originalmente publicado na revista TAM Nas Nuvens, 29ª edição de maio/2010.
Questão de eficiência?
Publicado em dezembro de 2011
“Investimos em diversidade por acreditarmos ser uma fonte de competitividade.” Esta foi uma das declarações proferidas durante a abertura de um fórum empresarial do qual participei recentemente.
A demografia das empresas começou a ser objeto de discussão das corporações na década de 60, fruto de mobilizações sociais de minorias que reivindicavam o exercício pleno de seus direitos, dentre eles, o acesso ao mercado de trabalho. Como resultado, foram sendo criadas legislações e políticas que visavam reduzir desigualdades sociais relacionadas à raça, ao gênero, à deficiência, à nacionalidade etc.
Esse movimento teve início nos Estados Unidos e espalhou-se para diversos países, tendo ganhado ênfase nas últimas décadas a partir do amadurecimento do conceito de sustentabilidade. É interessante notar que empresas premiadas por suas iniciativas na área vislumbram potenciais ganhos de desempenho, tendo em vista os impactos positivos que uma maior heterogeneidade humana pode gerar.
O raciocínio é de fácil entendimento. Uma maior variedade de perfis traz consigo múltiplas experiências e pontos de vista, que por sua vez, ampliam a capacidade de solucionar problemas, gerar inovações, enfrentar mudanças, entender nichos de mercado e conquistar sua simpatia. No entanto, não se pode garantir que esses desdobramentos ocorram sempre. A intensificação das diferenças em qualquer grupo humano é também acompanhada por possíveis dificuldades de comunicação e ineficiência.
Mesmo que o investimento em diversidade não gere maior competitividade em uma dada organização, é fundamental lembrar que a origem desse assunto é de natureza social, e não gerencial. Reduções de níveis de desigualdade, por si só, já justificam os esforços. Explorar os impactos positivos no desempenho pode ser uma forma inteligente de lidar com a questão, desde que não percamos de vista os benefícios inerentes a um mercado de trabalho mais inclusivo.
*Artigo originalmente publicado na revista TAM Nas Nuvens, 23ª edição de nov/2009.
Educação para um mundo plural
Publicado em junho de 2011
“Toda pessoa tem direito à educação”.
Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948, artigo 26
Apesar da complexidade presente nas discussões sobre os desafios enfrentados pela sociedade do século XXI, determinados argumentos parecem ser compartilhados pelas pessoas que se dedicam ao tema. Um deles diz respeito ao papel da educação na construção de um planeta mais igualitário. Em linhas gerais, acredita-se que a redução das desigualdades econômicas e sociais é diretamente dependente da garantia de acesso à educação de qualidade a qualquer ser humano.
Historicamente, o acesso às instituições educacionais esteve reservado às elites, enquanto que as demais classes sociais viram-se praticamente privadas do contato com o conhecimento formal. Essa tradição começou a ser alterada no último século, a partir da ampliação das estruturas públicas de ensino e a decorrente democratização do acesso à educação. No entanto, passados 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos, as estatísticas globais retratam ainda grandes desigualdades quanto ao nível e à qualidade da educação desfrutada pelas atuais gerações. Isso indica que lidamos com um problema não só de “quantidade” (estima-se 880 milhões de analfabetos no planeta), mas também de insuficiência qualitativa dos serviços prestados pela grande maioria das escolas.
A discussão sobre qualidade de ensino é bastante polêmica e multifacetada. Envolve variadas linhas teóricas sobre o processo de ensino e aprendizagem do ser humano e, consequentemente, projetos pedagógicos de naturezas bem distintas. Dentre as questões que permeiam o tema, merece destaque a noção de que os modelos de educação vigentes são ainda incompatíveis com o cenário multi-cultural que caracteriza o mundo contemporâneo. Ou seja, os sistemas de ensino públicos e privados estão, em geral, despreparados para lidar com a diversidade humana. Refiro-me à diversidade sob um ponto de vista abrangente, envolvendo desde atributos fisicamente aparentes (sexo, raça, idade, conformação física) até aspectos subjacentes (nacionalidade, valores, crenças, habilidades, nível sócio-econômico, etc.).
É interessante notar que o tema diversidade tem ganhado atenção cada vez maior na agenda de lideranças do setor privado. Programas voltados à criação de organizações mais heterogêneas e políticas de respeito às diferenças deixaram de ser desdobramentos experimentais do movimento de responsabilidade social corporativa. Passaram a ocupar espaço no direcionamento estratégico das empresas e são atualmente entendidas como pré-requisitos básicos para sua sustentabilidade. No entanto, o aprofundamento e a consolidação dessas iniciativas dependem de mudanças significativas na visão de mundo e, consequentemente, na atitude das pessoas que compõem o capital humano dessas organizações. Esse tipo de transformação não é alcançada por decreto. Pressupõe grandes investimentos na reeducação desses indivíduos, cuja formação básica foi desenvolvida a partir de um modelo homogeneizador e excludente de educação.
As mudanças de que estamos falando, ou seja, preparar melhor o cidadão comum para a vida em uma sociedade multicultural, o que significa saber conviver em harmonia com a diversidade, demandam um projeto mais ambicioso e de longo prazo para as políticas públicas no campo da educação. Pouco adiantarão os esforços empreendidos pelas organizações privadas, caso a educação básica oferecida às novas gerações não seja também alvo de mudança e reconstrução. Essa percepção, apesar de parecer óbvia, não faz parte de nosso senso comum.




