Andrea Schwarz

Uma triste notícia

No ano em que a Lei de Cotas fez 18 anos, recebemos com tristeza a informação proveniente da RaisSite externo. 2009 de que nos últimos dois anos a contratação de profissionais com deficiência decresceu 17,3%. Em comparação, no mesmo período (de 2007 a 2009), houve um aumento de 9,6% das contratações de profissionais sem deficiência.
 
Em números exatos, no ano de 2007, tínhamos 348.818 trabalhadores com algum tipo de deficiência, o que representava 0,93% do total de trabalhadores formalmente empregados, enquanto que em 2009 esse número baixou para 288.593, ou seja, 0,70% do total de empregados formais.
 
Uma das hipóteses que levanto é que o preconceito e a discriminação ainda são o maior entrave para a contratação de pessoas com deficiência. Por mais que haja uma legislação que obrigue empresas a contratar profissionais com deficiência, os processos internos a essa contratação, quando relativos a essa população, são mais morosos, difíceis e complexos. Não porque a priori tais processos sejam assim, mas sim, pelo fato de que são pessoas que os realizam e pessoas, como sabemos, tendem a inércia, resistem às mudanças.
 
Para que a inclusão de pessoas com deficiência ocorra de fato nas empresas é imprescindível uma mudança da mentalidade organizacional. As empresas, ao que parece, encontraram uma maneira de funcionar e acreditam, portanto, que existe apenas um jeito de crescer. O que precisa ser incorporado, antes, levado a cabo, é que a diversidade humana dentro da empresa só faz com que ela cresça ainda mais, mas que essa mudança requer empenho, ou seja, esforço.

Comentários

Enviado em 23/08/10 às 11h01

Alexandre Bezerril (a.bezerril@hotmail.com):

Cara colega,

concordo plenamente com sua análise, sou PNE e hoje trabalho em uma multinacional americana como consultor, e percebo também que além da mudança cultural das empresas ainda estarem engessadas, temos também o problema em relação a qualificação dos PNE's que anda decrescendo muito, esta cada vez mais dificil contratar um profissional com um nivel um pouco mais elevado, tendo formações especificas como Analistas, Engenheiros, etc. É preciso o governo também trabalhar na formação, como por exemplo bolsa de estudo nas Universidades, porque senão o nosso futuro será contratações operacionais para PNE's, ou seja, sem especializações, e assim descrescendo também o nivel salarial e carreira.

Um grande Abraço e parabéns pela publicação.

Enviado em 23/08/10 às 12h10

Rodrigo Viana Batista (dibovianna@yahoo.com.br):

Infelizmente a inclusão social de uma pessoa com deficiência é um paradigma que está longe de ser quebrado.

Os departamentos de Rh não estão preparados para a tal realidade,de diversidade, e de entender o PCD com suas potencialidades, e alocá-lo em cargos onde ele possa ser produtivo. Apenas se dispõe a cumprir a cota, alocando esses profissionais em cargos genéricos e vagos.

Temos também o problema da qualificação profissional dos profissionais com deficiência, um fato que está mudando atualmente, com instituições parceiras que fazem esse tipo de trabalho. Mas, as exigências do mercado de trabalho atual, ou seja, ensino superior, idioma estrangeiro, conhecimento sólido de informática, se já são díficeis de encontrar em profissionais sem deficiência, imagine em quem tem uma ? Dou o meu exemplo, deficiente auditivo, como ouvir uma aula na faculdade, com aquela sala de acústica dispersa ? Ou uma aula de inglês, passível de se confundir palavras em um idioma que não é o materno ? A sociedade em si, não está preparada para acolher esses profissionais. Uma sociedade fortemente capitalista e pouco social. Mas dá pra fazer um meio termo aí.

O meu maior espanto é no entanto a diminuição de pouco mais de 60 mil vagas de emprego de pessoas com deficiência, que eu acredito que possa ter sido causada pela crise financeira global que passamos recentemente. Para diminuir custos, as organizações cortam as vagas menos produtivas, e como os PCD's ocupam as tais nas maiorias das organizações, talvez possa ser esse o motivo.

Ainda que a legislação oriente para não fazer tal ato, sob a obrigação de repor a vaga com outro, as empresas como disse, estão em ambiente capitalista, visando seus objetivos, ou objetivo, o lucro.

Enviado em 23/08/10 às 13h09

Sueli Yngaunis (yngaunis@uol.com.br):

Esses dados mostram que apenas a Lei de Cotas não será suficiente para reverter essa situação. Como bem indicado por Schawarz é uma questão de mentalidade organizacional. Mas temos que ter cuidado nesse julgamento para não cair no preconceito "às avessas", o de discriminar as organizações. Lembremos que a historia de inclusão é recente, e que as pessoas ainda estão aprendendo a conviver com pessoas com deficiência. Por isso é imprescindível um trabalho de Comunicação Interna para ajudar a todos os atores dessa relação a mudar seus paradigmas. E escrevo isso com sinceridade, como deficiente auditiva conheçõ bem a influência que os olhares da sociedade exercem sobre você.

Enviado em 25/08/10 às 11h16

Lela (peceia@hotmail.com):

onde trabalho não tive nenhum problema para me integrar e crescer, mas minha deficiencia fisica é leve, então percebo que as pessoas conseguem se aproximar com mais facilidade de mim. vi uma colega cadeirante sair daqui pq a empresa realmente não estava com condições de recebê-la, principalmente no que diz respeito à estrutura física do prédio, e vi uma colega com paralisia cerebral ser alocada em diversas areas totalmente contrárias ao perfil dela, e como ela não se dava bem com as atividade começou a sofrer muito preconceito das pessoas em geral que passaram a tratá-la somente como "lerda". o preconceito e a falta de preparo ainda é muito grande, é uma luta pra muitas gerações ainda.

Enviado em 31/08/10 às 19h33

Jaciara Leonardo (jacyleo@hotmail.com):

Muito pertinente o artigo, realmente as empresas precisam parar de se esconder sob o manto de que o portador de necessidades especiais tem baixo grau de escolaridade, por isso não são contratados, mas essa realidade vem mudando, o que não muda são as vagas disponibilizadas, em sua grande maioria são vagas operacionais, sem possibilidade alguma de mobilidade. Desse modo, quem vai querer estudar, se esforçar fazendo cursos e obtendo qualificação, se a vaga que o encontra não atende à sua necessidade?
Acredito sim, que ainda há preconceito, despreparo, maus administradores e falta de capacitação dos empresários e seus chefes de RH, menos que "deficientes" mal preparados!
Obrigada pelo espaço!
Façam contato!

Enviado em 09/09/10 às 17h03

felipe andre (fklemba@uol.com.br):

Com excessao de concurso publico as poucas vagas q se tem é 700 reais e as vezes por má vontade ainda é dificil de se conseguir. Dai muita gente prefere ate se aposentar e ficar em casa ou vender bala por ai. Amputado de joelho por eex, tem q comprar uma protese boa pra ter uma boa qualidade de vida, custa 20 mil no minimo!!

Enviado em 03/11/10 às 18h26

Libi (libka17@yahoo.com.br):

Concordo com as opiniões das pessoas que escreveram aqui e também com o artigo escrito pela Andrea Schwarz. Lamentavelmente, o país é culturalmente e historicamente repleto de jeitinhos brasileiros e de preconceitos. Nós, os deficientes, percebemos o preconceito embutido e estampado no rosto das pessoas normais (se é que se consideram normais!), pois o preconceito é um câncer da sociedade que precisa ser combatida em todos os sentidos, não somente se refere aos deficientes e sim, as todas minorias que "não são adequadas socialmente".
Percebo que com esse preconceito organizacional, aparentemente, optam em pagar salários baixos aos profissionais qualificados e como "não acham", acabam criando vagas operacionais para os não qualificados, sem falar que os acima de 40 anos, são preteridos nos processos seletivos! Este é um outro preconceito e ninguém fica eternamente jovem! A velhice é um processo natural da vida e a morte bate à porta de todos sem limite de idade!
Eu, por exemplo, quando ocupava o cargo coordenador, a minha ex-chefe (por sinal tem a formação de psicologia!) não me repassava as informações para o desempenho de minhas atividades profissionais, simplesmente, me demitiu alegando que meu desempenho estava péssimo! Como assim? Foi um choque tremendo e claro que chorei muito, tive sentimentos mistos de raiva e tristeza! Recentemente, na última empresa que trabalhei, queria atuar dentro de hospital e estava fazendo curso de especialização para atuação nessa área, simplesmente, me demitiram alegando reestruturação e que não tinha lugar para mim ali! Como? Descobri que na área hospitalar precisava de um profissional para UTI adulto e outro para UTI pediátrico. E essa empresa tem uma rede de 11 hospitais,que deveriam ter pelo menos 22 profissionais atuando em UTI's, só tinha apenas dois profissionais para fazer o serviço que eu sonhava atuar! Sou deficiente auditiva e acredito que realmente as empresas tem, de fato, a distorção sobre as competências, habilidades, potencialidades e capacidades de cada pessoa com deficiência, estes últimos possuem sentimentos e pensamentos, com direito de viver dignamente!
Contudo, não perco esperanças de uma sociedade melhor e mais humana.

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Foto da(o) colunista Andrea Schwarz

Andrea Schwarz é formada em fonoaudiologia pela PUC – SP. Há dez anos atua como consultora em inclusão social, com foco na empregabilidade de pessoas com deficiência. Em 1998 Andrea se tornou cadeirante devido a uma má formação congênita na medula espinhal.

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