Fausta Cristina

Um triste caso de exclusão escolar

Sabe quando olhamos um jardim e ele nos chama a atenção mesmo sem ter nada de especial? A gente não sabe se a composição de cores, o aroma ou se é o momento que nos encontrou mais sensíveis à beleza daquelas flores.

Hoje, uma escola me chamou a atenção. Era uma escola bem pequena, espremida na cidade grande entre um prédio e outro. Nem era bonita, era cinza e suas paredes exibiam muitos trabalhinhos das crianças que estudavam ali, estavam colocados sem preocupação com a estética da decoração, mas traziam a beleza implícita na simplicidade, no gesto amoroso de quem exibe com orgulho rabiscos e traços desconexos a pretexto de obra de arte.

Melhor que ver o ambiente acolhedor, foi ver que aquelas crianças eram diferentes, de uma forma muito sutil, uma diferença expressa nas pequenas atitudes de apoio mútuo e na forma como se sentiam iguais, mesmo estando entre crianças com deficiências físicas ou com um padrão atípico de funcionamento. Não havia ali nem preconceito nem cuidado excessivo nem discriminação nem preferências. Era um nível de aceitação do que o outro tinha para dar que raramente vemos fluir de maneira tão espontânea entre as pessoas.

Não pude deixar de pensar que adultos incríveis as crianças daquela escola se tornariam, desde cedo convivendo tão bem com a diversidade, que afinal de contas é quem dita o compasso nas relações humanas.

Essa foi uma doce experiência que acabou compensando o amargor absorvido em recente episódio em que testemunhei a expulsão de um lindo menino com Autismo, de dez anos de idade, de uma escola particular em Porto AlegreSite externo.. Estive presente como voluntária, na tentativa de contribuir para que equipe e coleguinhas entendessem seu jeito particular de se expressar e adotassem medidas específicas para sua inclusão, como tantas vezes já fiz. Entretanto, a escola deixou claro que não pretendia incluir e, com todas as letras, pediu que a mãe arranjasse outra escola, de preferência uma escola especial.

Foram tantas afirmações equivocadas, tanta ignorância, que perdi por alguns momentos minha capacidade de acreditar que as pessoas envolvidas na educação são quase sempre pessoas mais sensíveis, pessoas que sabem que educação é mais que fala, que é sobretudo exemplo. Olhando a dor da mãe, só me restou apoiar, orientar, lamentar. E no final, um processo judicial, uma mãe magoada e uma criança confusa que chama por uma escola que não a quer.

Porém, o pior resultado virá para os demais alunos desta escola tão bem decorada, paredes repletas de frases de grandes educadores, palavras usadas para enfeitar. Estas crianças talvez nem saibam a riqueza da oportunidade educativa que estão perdendo. Não conseguirão entender que existem tempos diferentes de aprender, ou formas variadas de expressão, não saberão que a “deficiência” ensina, promove valores, enriquece a nossa vida, apura nosso olhar.

Por estas crianças, eu lamento e lamento também minha importência neste episódio, mas lembrando Quintana, em seu poema "Deficiências", penso de certa forma consolada, que no final das contas, cego, surdo, mudo, deficiente é a escola que não é capaz de incluir e com certeza a pior deficiência é a deficiência de amor.

Comentários

Enviado em 12/06/12 às 22h39

Vanessa (vanessakuyven@yahho.com.br):

Fausta, tua presença nesta reunião não foi em vão...foi tua presença e teu apoio, tão firme, tão acolhedor, tão carinhoso, que me deu forças para enfrentar este momento tão triste e revoltante.
A escola fechou uma porta, e com isso criou um "muro" enorme. Deixou meu filho do lado de fora, e as crianças que lá permanecem sem poder ver o outro lado do "muro", sem a oportunidade de crescer, de amadurecer...
Mas, tudo tem o "lado positivo" e nesta história toda, ampliei meu olhar, fiquei mais forte, me tornei uma mãe melhor que está aprendendo lutar pelos direitos deste filho tão especial.
Obrigada por tudo, você é uma pessoa maravilhosa, e na minha opinião, um exemplo a ser seguido... tua força, tua tranquilidade, tua vontade de ajudar contagiam as pessoas na tua volta, você torna o mundo das pessoas que estão próximas a você mais bonito.
Pena que aquela escola não deixou você mostrar tudo isso, tenho certeza que a escola e as pessoas que lá permanecem perderam uma oportunidade extraordinária de crescer, de apender, de evoluir...
Você tem toda razão, "deficiente" é a escola que não soube incluir...

Enviado em 13/06/12 às 09h29

Ana Paula (anapaula02filhos@hotmail.com):

Me apertou o coração imaginar a dor dessa mãe e essa pequeno.Sou mãe de um autista de5 anos e já passei por isso ,apesar de tre sido de modo menos direto.´Mas acredito também que, quem perde realmente ,são aqueles que agem dessa forma mediocre ,pq tem coisas que dinheiro não compra , e entre elas está nossa qualidade de melhorarmos como ser humano...

Enviado em 13/06/12 às 11h05

Izoilda (izo.alves@gmail.com):

DÊ um sorriso a uma criança especial e Ela lhe entregará o coração.
Q pena perderam a oportunidade de viver uma experiência tão gratificante.
Foi minha melhor experiência na vida profissional,agradeço a Deus esta oportunidade,como aprendi,como enriqueceu a minha vida.
Q Cristo Jesus toque nos corações das pessoas enchendo-os de sensibilidade e respeito para q seus olhos enxergam Cristo
em todas pessoas portadoras de necessidades especiais ou não.
Por estas crianças, eu lamento e lamento

Enviado em 13/06/12 às 20h34

Nuria (nuriagoncalves@yahoo.com.br):

Querida amiga! Compartilhamos juntas este triste acontecimento. Contribuímos com o apoio que pudemos, e ainda continuamos contribuindo. Ainda me dói a sensação de impotência. Mas tenho esperança em dias melhores, não só para este lindo menino e sua mãe, outra amiga querida, mas para todas as pessoas. Há que se conseguir amolecer estes corações tão enrijecidos. Não podemos perder a fé! Grande beijo!

Contribua com seu comentário!

Parceiro oficial Logo do Instituto Mara Gabrili

Perfil

Foto da(o) colunista Fausta Cristina

Fausta Cristina é mãe de Milena, sua terceira filha, hoje com 8 anos. A gravidez de Milena foi normal. Com o passar dos dias, sua filha chamava a atenção por ser muito quieta. Fausta estranhava o fato de ela não olhar, não fixar a atenção e com o tempo, a sensação de que algo estava errado foi aumentando. Com nove meses, foi diagnosticado que Milena tem autismo. Fausta mantém o blog Mundo da MiSite externo..

Outros colunistas

Arquivo

©2013 Espiral Interativa. O conteúdo produzido por colunistas e blogueiros, bem como os comentários de leitores publicados no Vida Mais Livre, não refletem a opinião da redação do portal.