Garoto de 13 anos que inventou impressora braile vai doar exemplar para o Brasil

Foto da impressora à esquerda e de Shubham à direita
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Shubham Banerjee, de 13 anos, chegou a Campus Party – o principal evento de tecnologia e internet anual do Brasil – parecendo com qualquer outro menino de sua idade, vestindo calça jeans, tênis e camiseta. A diferença é que além dos traços que revelam suas raízes indianas, estampava na camiseta não algum personagem de videogame ou seu super-herói favorito, mas o nome da própria empresa.

Shubham é o inventor da Braigo, uma impressora braile de baixo custo feita com um microcomputador e Lego, brinquedo com peças pequenas que se encaixam (o nome Braigo é a união das palavras braile e Lego). O garoto belga, com pais indianos e residente de Santa Clara, na Califórnia, é o mais jovem empreendedor a receber investimento no Vale do Silício. Ele recebeu um aporte de valor não revelado da Intel Capital, fundo de venture capital da empresa para criar sua própria startup, a Braigo Labs. Foi a primeira vez que o fundo investiu em uma ideia e não em um negócio já em funcionamento, apostando no potencial da invenção do garoto, que deve reduzir o custo de ter uma impressora do tipo de US$ 2 mil para US$ 500, aproximadamente R$ 1.300.

Com olhar tímido e cabeça baixa, Shurbham parecia nervoso e admirado com o próprio sucesso em sua primeira viagem internacional para promover seu negócio. Ao falar da empresa,  mostrou a desenvoltura de um empreendedor experiente: a voz ganhou potência e o olhar mirava fundo nos olhos do interlocutor. Em uma pausa entre uma pergunta e outra, contou discretamente o número de jornalistas presente em sua coletiva de imprensa, uma soma cujo resultado disparou um contido olhar de surpresa.

O primeiro protótipo da impressora de Shurbham foi apresentado no evento e as 20 unidades iniciais devem ficar prontas em julho. Essas impressoras serão doadas para instituições de apoio a pessoas com deficiência visual. Entre elas está a Fundação Dorina Nowill, que Shurbham visitou na manhã de hoje. “Eles têm uma impressora grande e barulhenta lá. Espero ajudá-los com minha impressora”, disse.

Será a partir do feedback dessas instituições que ele fará os últimos acertos para colocar a impressora à venda no mercado, algo que está previsto para este ano. Shurbhan revelou na Campus Party uma novidade: a máquina será lançada junto com um software gratuito que permitirá converter textos inteiros no formato PDF para impressão em braile em apenas 30 segundos.

No palco principal da Campus Party, Shubham contou sua história. Após acompanhar a trajetória de um amigo da família com deficiëncia visual que cursava pós-graduação, questionou os pais como pessoas cegas leem. Eles sugeriram que ele procurasse a resposta no Google. Na pesquisa, ele descobriu que há pelo menos 35 milhões de pessoas com problemas de visão no mundo e que a maioria (90%) vive em países pobres.

Quando pesquisou o preço de uma impressora que imprime em braile, ficou chocado com o que viu: o modelo mais simples custa em torno de US$ 2 mil. Foi o incentivo para ele decidir criar uma impressora com custo menor.

Shubham usou um kit Lego Mindstorm, um tipo especial do brinquedo equipado com um miniprocessador para permitir a construção de um robô, que custa US$ 350, motores elétricos e sensores. “Eu amo Lego desde que eu tinha 2 anos de idade”, diz. “Meu objetivo era construir o hardware da impressora e deixar o design aberto para outras pessoas criarem.”

A repercussão da invenção do garoto, porém, foi tão grande que chamou a atenção de investidores e levou o garoto a expor sua impressora em um evento na Casa Branca, em Washington, com a presença do presidente Barack Obama.

O feedback positivo estimulou o garoto a trabalhar no que chama a versão 2.0 da impressora, um modelo dessa vez sem o Lego, que pudesse ser fabricado em larga escala para venda. Conseguiu manter o baixo custo do produto com um microcomputador Intel Edison, o que acabou chamando a atenção da empresa para financiar a empreitada. Antes disso, porém, Shubham recebeu um “paitrocínio”, como faz questão de dizer em um português embolado.

“Foi tudo criado com 100 linhas de código apenas. Você consegue acreditar nisso?”, me perguntou o pai do garoto, Neil Banerjee, que é engenheiro da Intel, mas garante não ter nada a ver com o apoio da empresa ao filho. “Da primeira vez que vi a impressora achei que era um projeto de escola. Só percebi a importância quando ele começou a receber muitos feedbacks positivos de deficientes visuais”, conta.

Hoje, a Braigo Labs tem dez funcionários. Quem assumiu a diretoria executiva foi a mãe do garoto, já que aos 13 anos e cursando a sétima série, Shubham não pode ser o responsável legal pelo negócio. “Não posso ser CEO porque ainda não tenho 18 anos”, lamenta.

Apesar de não ter criado a impressora com intuito de abrir um negócio, Shurbham parece ter adquirido gosto pelo empreendedorismo. Questionado sobre seus passos futuros, diz que depois de resolver o problema de pessoas cegas, quer trabalhar na criação de soluções para outros tipos de deficiência.

Fonte: Estadão