‘Adaptação é constante’, dizem alunas cegos sobre universidade

Foto de Isabela e amigas na sala de aula
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Com a chegada das provas, os estudantes precisam mostrar que toda a dedicação às aulas valeu a pena. Entretanto, duas universitárias já deixaram claro que não necessitam provar mais seu empenho: Isabela Rocha, de 17 anos, começou o curso de jornalismo neste primeiro semestre de 2015, enquanto Bruna Vieira, de 25, iniciou o curso de psicologia em 2011, e já está no penúltimo ano da faculdade. Ambas possuem deficiência visual, mas se colocam no mesmo patamar de seus colegas de sala, que abriram os braços para elas.

Isabela, que nasceu com a deficiência, conta que nunca deixou a condição interferir em sua qualidade de vida. De acordo com ela, entrar na faculdade foi um acontecimento que a deixou apreensiva unicamente pelo medo natural que todo estudante enfrenta ao ingressar no mundo acadêmico.

“Eu contei com o apoio da minha família, que sempre acreditou em mim”, disse ela. Isabela relata que sempre gostou da área jornalística, principalmente pelos requisitos do mercado, que pede por um profissional crítico e analítico, que saiba dialogar um pouco de tudo com todos.

Bruna, que também nasceu com a deficiência, disse que, apesar de estar na faculdade há três anos, a adaptação ao local é constante. “Cada dia é um novo desafio, e eu os supero com a ajuda dos meus pais, amigos e professores, que são extremamente atenciosos”, disse.

“A universidade tem que pensar em alunas como nós. A biblioteca, por exemplo, não tem acessibilidade para deficientes visuais”, completou Bruna.

Por meio de um programa no computador, que lê texto em tela, as estudantes acessam às aulas previamente pelo sistema da universidade e ficam por dentro do que será passado em sala.

A professora de fotografia do curso de jornalismo, Maria Luísa Hoffmann, conta que nunca lecionou para uma pessoa com deficiência visual antes, e, por isso, sente que está dando um passo importante na carreira. “Muitas vezes a Isabela faz coisas que eu não espero, e é uma surpresa positiva quando isso acontece, pois mostra que o trabalho está dando resultado”, disse a professora.

A coordenadora do curso, Carolina Mancuzo, relata que Isabela é uma pessoa extremamente fácil de lidar, o que facilita todo o processo de adaptação. “Os desafios são constantes e amadurecem a todos nós. Estamos sempre aptos a ensinar e a aprender com pessoas como Isabela”, disse.

De acordo com a coordenadora, é a primeira vez, em 20 anos de existência, que a faculdade de jornalismo recebe uma aluna como Isabela.

Preparação

Em nota, a Universidade do Oeste Paulista se posicionou quanto à acessibilidade disponível na faculdade, que fica localizada no campus II, em Presidente Prudente. "Foi constituído, em agosto de 2013, o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI), pela portaria nº 17/2013, que tem por objetivo desenvolver políticas de acessibilidade às pessoas com deficiência, promovendo ações para a garantia da inclusão plena aos programas e serviços desenvolvidos na Unoeste."

Passo importante

Para a coordenadora da Associação Filantrópica de Proteção aos Cegos de Presidente Prudente, Eliete Marguti, a entrada das jovens deficientes visuais no mundo acadêmico é de grande importância. “A inclusão social ainda está distante do considerado ideal, porém são jovens como elas que mostram que o caminho pode ser percorrido”, disse. 

A associação já tem 75 anos e outros deficientes visuais que passaram por ela também já ingressaram no mundo acadêmico. O atendimento prestado pelo local visa justamente dar autonomia ao jovem deficiente visual, uma vez que muitas escolas, por vezes, não têm a estrutura necessária para atendê-las, segundo relatou.

Fonte: G1