Cresce o número de pessoas com deficiência no mercado, mas preconceito persiste

Números do Ministério do Trabalho indicam crescimento de 32% entre 2009 e 2014, mas o preconceito persiste

Foto de uma jovem cadeirante sorrindo e posando para a fotógrafa que a clica em uma sala ampla e iluminada
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É com sorriso largo que a fisioterapeuta Paula Ferrari, de 32 anos e cadeirante há quatro após infecção medular, passa uma hora conversando sobre os desafios pelos quais passa uma pessoa com deficiência (PCD), desde a locomoção até o ingresso no mercado de trabalho.

— As pessoas querem surdos que ouçam, cegos que enxergam e cadeirantes que andem — avalia ela, achando graça ao citar exemplos de como alguns setores ainda lidam com esse público.

No Brasil, pessoas com necessidades específicas falam sobre esse dilema paradoxal: enquanto setores produtivos buscam aumentar a inclusão, a soma desinformação mais falta de vontade de algumas partes resultam num preconceito velado contra milhares que diariamente precisam provar sua eficiência.

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), feita pelo IBGE em 2013, apontam que, dos 200,6 milhões de brasileiros, 6,2% da população maior de 18 anos tinham ao menos uma das quatro deficiências investigadas: intelectual (0,8% ou 1,6 milhão de brasileiros), física (1,3% ou 2,6 milhões), auditiva (1,1% ou 2,2 milhões) e visual (3,6% ou 7,2 milhões).

Já incluída nesta conta naquele ano, Paula fala que as especializações na área de Neurologia ajudaram-na a encarar mais de frente a nova realidade, e até enxergar novas oportunidades. Hoje, além de seguir com sua profissão, ela participa de desfiles e eventos e ainda dá palestras sobre sexualidade para pessoas com deficiência.

— Até na família há quem tenha resistência em colocar a cadeira de rodas na foto. Querem que a gente apareça em pé, e posar com a cadeira faz ela aparecer de uma forma muito bonita — discursa a fisioterapeuta, enquanto é clicada pela fotógrafa Kica de Castro.

Kica tem hoje uma agência com 86 modelos com deficiência cadastrados do país. Conheceu esse universo num centro de reabilitação onde trabalhava, em São Paulo, e em 2005 decidiu registrá-lo com mais afinco. Ela observa que a PCD está “dando mais a cara a tapa” com o passar do tempo, mas que a resistência ainda é grande.

— Não podemos reclamar, porque a coisa está melhorando, mas claro que falta muito a ser feito. Chamam os modelos e atores para testes, por exemplo, mas já aconteceu de dispensarem um cadeirante porque o local só tinha escada. Querem alguém com uma deficiência que não apareça tanto — destaca ela, para Paula concluir:

— Até mesmo segmentos que investem em pessoas com deficiência nos enxergam como possibilidade de marketing, não como pessoas produtivas. Já participei de um desfile de moda inclusiva onde não fiz absolutamente nada a não ser ficar rindo para as pessoas. Pensei: “por que não colocaram uma planta?”.

MAIS 42 MIL VAGAS EM 2015, A MAIORIA EM SÃO PAULO

Números da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, indicam crescimento de 32% de PCD no mercado. Enquanto em 2009 havia 289 mil empregados, 2014 fechou com 381 mil. Em 2015, segundo a pasta, foram criadas 42 mil vagas, a maioria concentrada em São Paulo, com 11 mil postos de trabalho.

Há uma Lei de Cotas que obriga a empresa com cem ou mais funcionários a preencher de 2% a 5% dos seus cargos para PCD. A auditora fiscal do Trabalho Fernanda Maria Pessoa di Cavalcanti diz que a cada ano as fiscalizações vêm se tornando mais constantes para que a regra seja cumprida. Somente ano passado, aponta, foram mais de 4,5 mil autuações. Os argumentos mais usados por quem não cumpre a lei, explica, são o alto custo para adaptar o ambiente de trabalho e a falta de qualificação profissional.

— Hoje temos 9,3 milhões de PCD que se encaixam na Lei de Cotas, para 827 mil vagas abertas. Então tem gente, sim, para entrar no mercado de trabalho — pontua.

Em recente pesquisa feita pela Talento Incluir, especializada no mercado de trabalho para PCD, 56% dos 4319 entrevistados disseram que a área de Recursos Humanos das empresas não está preparada para recebê-los.

— Já recebi mensagem que dizia: “empresa tal precisa contratar tantos ‘deficientes’, senão levará multa por não cumprir a lei”. Isso dói de ler — conta a consultora Tábata Contri.

A venda de carros com isenção de impostos para PCD (físicas, visuais, mentais ou autismo) também vem apresentando bons resultados. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Revendedores de Serviços para Pessoas com Deficiência (Abridef), Rodrigo Rosso, afirma que em 2012 foram vendidos 42 mil veículos. Em 2015, a conta fechou em 106 mil.

Sem andar desde os oito anos de idade, consequência da poliomielite, o despachante Itamar Garcia, de 51, recebeu desconto de R$ 15 mil na compra do último carro, em setembro do ano passado.

— Não dá para utilizar transporte público porque é péssimo. E é ruim a locomoção na própria calçada. Enquanto isso, as montadoras oferecem uma gama grande de opções — celebra.

Os números positivos seguem na educação. O Censo Escolar 2015 registrou que, até o ano passado, 56,6% das escolas públicas do país tinham alunos com deficiência incluídos em turmas regulares. Em 2008, esse percentual era de 31%.

A diretora de políticas de educação especial do Ministério da Educação, Patrícia Raposo, fala na maior qualificação dos docentes, em mudança cultural da sociedade e crescente preocupação das secretarias de Educação em aumentar e fiscalizar espaços adaptados. Mas o estudante de Design de Games Gabriel Alli Chair, de 18 anos e com autismo, ainda enxerga algumas deficiências nas redes de ensino.

— Fui expulso de muitos colégios e cursos. Além do autismo, tenho o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que na infância foi muito severo. Encontrar uma escola, professores e colegas que entendessem isso foi quase que impossível. Eu queria sair de dentro da sala o tempo todo e era obrigado a passar horas sentado — lembra ele, que mora em São Paulo e iniciou na faculdade este ano.

A irmã, Camila, de 26 anos e com síndrome de Asperger, acabou de se formar no curso de Design em Animação.

— Os professores me obrigavam a coisas com as quais não fico confortável, como ir na frente da sala e falar para os colegas. A diretoria também não facilitou. Infelizmente sofri bullying, mas em compensação fiz amizades muito sólidas que me protegiam dessas pessoas desinformadas.

Fonte: O Globo