Músico cria violão que pode ser utilizado por pessoas com deficiência

Foto de Reinaldo Amorim Casteluzzo, que segura um violão e olha para a câmera
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O músico pernambucano Reinaldo Amorim Casteluzzo desenvolveu e patenteou um violão que pode ser tocado com uma mão só, o que possibilita a inclusão de pessoas com paralisia cerebral, sem uma mão ou outras deficiências.

A estreita relação de Casteluzzo com a música começou quando ele tinha 5 anos, em sua cidade natal, Petrolina (PE), e sua mãe comprou um violão para ele compartilhar com seus dois irmãos. “Ela era solteira e não tinha salário, mas fez um sacrifício para adquiri-lo para nós três”, conta. “Desde então, me dediquei a estudá-lo e me tornei violonista clássico, e um dos meus irmãos virou luthier [fabricante de instrumentos de corda com caixa de ressonância].” Casteluzzo compôs até hoje mais de 200 músicas instrumentais, gravou 15 álbuns e criou vários métodos de ensino de como tocá-lo.

Nos anos 1980, ele começou a dar aulas em conservatórios e notou que havia alunos com deficiências motoras congênitas e outros com mutilações, sem um braço ou mão. Reparou também que não existia em nenhum lugar do mundo um violão adaptado para essas pessoas.

Daí surgiu a ideia de criar um que pudesse ser tocado por jovens com deficiências. “Tive como foco incluí-los em atividades musicais, não apenas como ouvintes de recitais, mas como participantes ativos na prática musical, tocando o instrumento, que é popular entre os jovens nas atividades de encontros e lazer com círculos de amigos”, conta Casteluzzo.

Para que pessoas com mobilidade reduzida nos membros superiores possam tocá-lo, o violão tem um número de cordas maior, 12 em vez das seis do convencional, e tem uma afinação específica em grupos de quatro cordas, onde cada grupo forma uma tonalidade. “Além disso, usei a estratégia de combinação das tríades que formam os acordes, para assim construir as notas fundamentais que são a tônica, a dominante e a subdominante, as quais configuram o acompanhamento”, explica o músico.

De acordo com ele, essas características tornam possível que pessoas toquem o violão com uma única mão, pois a que faria os acordes é dispensada, porque a frequência harmônica de cada corda está diretamente afinada na altura dos sons que os formam.

No estudo popular de violão, é comum o uso de cifra, desenho do braço do instrumento mostrando onde se deve pressionar os dedos para formar o acorde e onde se deve vibrar ou dedilhar as cordas. “No que criei só é necessário mostrar em qual lugar das cordas se deve vibrar ou dedilhar”, diz.

Violão como terapia

Depois de desenvolver o violão, Casteluzzo resolveu testá-lo numa pesquisa para seu mestrado na Faculdade de Ciências Médicas (FCM), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sob orientação do pediatra Roberto Teixeira Mendes, ele avaliou o uso do instrumento por 14 adolescentes, de 7 a 21 anos, com paralisia cerebral (PC), da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), do município de Arthur Nogueira (SP), todos atendidos pelo Hospital das Clínicas da Unicamp. Para a intervenção, o pesquisador foi acompanhado de uma psicóloga, uma assistente social e uma professora de música.

O objetivo do estudo era avaliar o uso do violão adaptado na melhora da autoestima de crianças e adolescentes com deficiência motora unilateral em decorrência de paralisia cerebral.

Segundo Casteluzzo, os resultados foram surpreendentes. Todos os alunos com paralisia cerebral conseguiram tocar o instrumento e houve um grande aumento da autoestima deles.

Reinaldo, hoje atuando na área terapêutica, conta que agora será preciso elaborar todas as etapas do procedimento para fabricar o violão em grande escala, construir o instrumento a um menor custo, que hoje é de R$ 2 mil, e colocá-lo no mercado, porque já tem muitos pedidos.

“Já vendemos mais de 50, mesmo com o preço ainda alto”, conta. “Também vamos oferecê-lo a centros de reabilitação ou às pessoas que trabalhem na área. Essa é uma apenas uma retribuição que damos no sentido de incluir essas pessoas, pois elas podem fazer muito mais do que pensamos.”

Fonte: BBC