Jovens com Síndrome de Down e a inserção no mercado de trabalho

Em busca da autonomia e vida independente, cada vez mais pessoas com Trissomia do 21 buscam o protagonismo também no mercado de trabalho

Foto de uma jovem com Down. Ela tem cabelos longos castanho avermelhados, usa óculos e está em um ambiente fechado repleto de pôsteres coloridos ao fundo
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Conheça as histórias de Jéssica Pereira e Cailana Eduarda Bauer Lemos, mais conhecida como Cacai. As duas jovens nasceram com síndrome de Down, que seguem em busca da sua realização profissional.

Pioneiras em suas áreas de atuação, Jéssica é empreendedora, encantada pelo universo da culinária, atualmente administra junto com a irmã um café. Ela é responsável pelo menu, atendimento, e onde emprega outros colaboradores também com algum tipo de deficiência. Já Cacai conquistou seu espaço no meio digital, onde produz conteúdo para um canal próprio no Youtube, com mais de 276 mil inscritos e mais de 12 milhões de visualizações.

Ambas contam com o apoio e suporte da família no acompanhamento de suas iniciativas, mas fazem questão de ter voz ativa e participarem de todas as decisões envolvidas em seus negócios. “Partiu da Jéssica a iniciativa decisão de contratarmos pessoas com deficiência para trabalhar no Bellatucci Café. Ela primeiro trouxe alguns amigos com síndrome de Down. Depois, abrimos o leque para pessoas com outras deficiências intelectuais”, explica Priscila Della Bella, a sócia e irmã de Jéssica.

A youtuber Cacai tem pai, mãe e irmãos compartilhando o sonho de ter um canal próprio de vídeos na web. “A inspiração veio da minha vontade de ser atriz e ajudar as pessoas com deficiência”, explica a jovem. Atualmente toda a família trabalha na equipe de produção, sob a supervisão da exigente estrela digital. “O pai ajuda nos roteiros e design gráfico; a irmã Luiza auxilia no roteiro, é a voz das paródias e da música do clipe oficial; o irmão Caio é coadjuvante; e eu filmo e edito”, conta Jana Bauer, mãe da Cacai.

O canal, que tem sido um sucesso de visualizações e aceitação, também já foi alvo de comentários negativos e preconceituosos, mas nada que abale a autoconfiança de Cacai. “Eu ignoro. Meus fãs me defendem”, diz ela, enquanto a mãe revela que adicionou um filtro para identificar mensagens que possam conter conteúdo ofensivo.

Segundo Janaína, o trabalho de produção de conteúdo para o canal contribui muito para a evolução da jovem. “Desenvolve muito a fala. Além disso, os desafios que fazemos no canal aprimoram a coordenação motora, exercita bastante o cérebro, até porque ela é muito perfeccionista”, observa.

Em relação aos obstáculos que precisam ser superados, Priscila afirma que o desafio e aprendizado são diários. “Quem entra no café logo lê o aviso: estamos sempre em treinamento, tenha paciência. E é isso, treinamento constante não só deles, mas nosso também. Temos que aprender a lidar com as limitações de cada um e ajudá-los a desenvolver suas habilidades”, diz. Ela ressalta também que a iniciativa tem sido bem aceita pelos frequentadores, que não só voltam ao local, como recomendam para os conhecidos. “Às vezes encontramos empecilhos nos próprios pais, que acham que seus filhos não são capazes, não estão preparados para trabalhar. Ou que é mais importante investir todo o tempo deles em atividades de lazer e extracurriculares, não priorizando a experiência do trabalho”, afirma.

A sócia do Bellatucci Café ainda destaca o importante papel das empresas neste processo de inserção de PCDs  no mercado de trabalho. “Nós, enquanto empresas, devemos nos preocupar em fazê-los se sentir uteis, produzindo, trabalhando de fato. Não os colocando ali somente para dizer que é uma empresa engajada e inclusiva. É fundamental ter essa consciência de que eles querem (e precisam) trabalhar de verdade, se sentirem respeitados, valorizados e importantes”, aponta Priscila.

Por mais desafiadora que a rotina diária possa parecer, Jéssica ama o que faz. “Foi difícil quebrar a rotina, sair do conforto do dia a dia (escola/casa/diversão/televisão/tablet). Acordo cedo todos os dias para chegar às 9h no Bellatucci, mas não reclamo de nada. Este negócio mudou minha vida”, conta a jovem empreendedora.

Inserção no mundo corporativo

O grande e competitivo mercado corporativo também tem aberto suas portas para a inserção de pessoas com síndrome de Down em seus quadros de funcionários. Um exemplo disso é o Grupo CCR, que conta com um programa específico para a admissão de colaboradores com deficiência, seja física ou intelectual.

“Temos um programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência formatado desde 2015, porém já fazemos a inserção de colaboradores com síndrome de Down desde 2008”, afirma José Antônio Coelho Júnior, Coordenador de Gestão de Pessoas da organização.

Segundo ele, a empresa conta atualmente com um profissional com síndrome de Down em seus quadros, que atua há 6 anos como agente administrativo, nas áreas de Gestão de Pessoas, Apoio Administrativo e Sustentabilidade. “Este processo foi acordado entre as áreas e possui agenda fixa, com rotinas bem estabelecidas e plano de metas individualizado”, explica Júnior.

De acordo com o programa desenvolvido pela empresa, na contratação há uma adequação do ambiente e capacitação prévia da liderança. Além disso, o colaborador passa por um treinamento adaptado ao seu tipo de deficiência.

“A capacitação deste profissional é focada no cargo e nas necessidades por conta da deficiência apresentada. É muito difícil achar profissionais com síndrome de Down para as nossas áreas de operação administrativas, por conta do preparo prévio necessário e da disponibilidade para deslocamento até o posto de trabalho”, revela o coordenador. Ele afirma que a estratégia que ajuda o programa a ser bem sucedido. “A experiência de trazer parcerias especializadas para influenciar na adaptação das rotinas foi muito produtiva, com a atuação do terapeuta ocupacional. Além disso, manter uma agenda fixa, com tarefas bem definidas e plano de metas individualizado produz um efeito positivo muito significativo”, conclui Júnior.

Fonte: Assessoria