A Espera

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Aqui, agora, nesta sala vivo a agonia da espera. Do outro lado um problema que preciso enfrentar, uma situação difícil. Sinto meu coração batendo e parece que respirar nunca foi tão pesado. Quero me acalmar e não consigo, minhas mãos estão suando e tremendo. Isso tudo porque eu sou de paz e uma pessoa de paz quando sabe que vai ter que discutir com alguém pode ficar assim, tão nervosa, tão entregue às emoções.

O que acorre porém me diz respeito apenas em parte, em grande parte é verdade, mas de fato venho defender outra pessoa. Alguém que não pode defender a si mesma com argumentos válidos em um debate. Estou aqui pela minha filha e ela tem autismo. Hoje, agora, espero para brigar por ela.

Eu só queria não ter que passar por isso, eu só queria muito que fosse um pouco diferente, mas para ser diferente tudo precisa mudar, eu preciso mudar e você que me lê agora, é você mesmo com quem divido este difícil momento, você também precisa mudar.

A minha filha precisa mudar de escola. Ela tem chorado ao chegar em casa por coisas que estão acontecendo e as pessoas não deram a devida atenção, tentaram minimizar a situação. Porém, ao  ver suas lágrimas caindo e ela em total silêncio como que escondendo sua dor de mim, me fazem ver que a situação não é mínima, é grave. Vai marcar uma vida para sempre e colocar abaixo um trabalho de anos para construir auto confiança e auto aceitação.

O bullying não pode ser encarado como ‘apenas estas coisas que acontecem em toda escola’. Fazer o outro sofrer por diversão é algo que não deve ser aceito nem pelos pais, nem pela escola, nem por mim ou por você. Uma criança pode ser levada a refletir sobre a consequência de sua ação e repensar, mudar seu agir. Porém isso não acontece se o próprio adulto pensa que não é nada demais.

É por isso que antevejo uma briga, uma discussão. Eu não posso aceitar e preciso convencer quem está aqui a não aceitar também e entender que é preciso fazer muito mais para que isso não continue a acontecer.

Enquanto a porta não abre essa espera também me oprime. Alguém trouxe sem perceber muita dor para nossa vida, além de travesseiros molhados, percebemos que todo nosso investimento para que nossa doce menina gostasse da escola e aceitasse que “ser diferente é normal”, está ameaçado por risadas e deboche.

Estranho pensar que daqui há pouco vai ser noite e a massacrante maioria das pessoas vão estar reunidas em suas casas com um aparelho de TV ligado ou sintonizados em redes sociais nos seus smartphones, tablets ou computadores. Desconectados do real e ligados ao virtual, estarão fortalecendo os valores que me trouxeram aqui hoje, agora e que me fazem suar e chorar.

Ao postar foto de pessoas para as ridicularizar, compartilhar comentários ofensivos, ao rir de quem é pobre ou de quem está fora de forma, ao zombar de quem é velho ou quem é ‘feio’, expor quem tem mal gosto ou é de uma cor diferente. Ao compartilhar a piada do ‘fanho’, do ‘mudo’, do ‘manco’, desrespeitando a sexualidade de alguém, algo tão particular e até mesmo no dia a dia olhando torto para o jeito tão diferente de alguém.

A gente vai disseminando o preconceito e dizendo ao mundo que todos devem entrar em uma forma que se chama normal, com padrões de peso, altura e Q.I. E quem não se enquadrar vai ser colocado à margem, excluído e sem perceber vamos perpetuando o bullying e tornando nossos filhos excludentes e preconceituosos também. A pretexto de fazer graça ou apenas descontrair, sustentamos os pilares da sociedade desigual e segregadora que teimamos em negar que somos. Mas o pior disso tudo é que os frutos produzidos por estas atitudes hora ou outra vão cair no nosso próprio quintal.

O tal país melhor começa de fato com atitudes diárias que só cabem a você. Como quando você olha para quem é diferente com compreensão e ensina seu filho  a fazer o mesmo. Quando percebe que se educa não por palavras, mas pelo exemplo e procura cobrar só aquilo que você já consegue ser.

Por enquanto eu fico por aqui pagando o meu próprio preço por não ter percebido tudo isso antes. Não fiz nada disso e só aprendi a pensar – e agir – diferente, quando a diferença escancarou a minha porta, me expulsou da minha zona de conforto e trouxe o preconceito para bater na minha filha bem na minha frente. Eu espero mesmo que com você não seja assim.

Por enquanto fico aqui suando, ansiando, tentando manter a esperança de que as pessoas por detrás da porta estejam ao menos um pouco dispostas a finalmente começar a mudar mundo.