A lição do homem que rastejava

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Era um daqueles dias perfeitos que acontecem na vida da gente, para alguns quase nunca, para outros quase sempre. Eu estava em uma praia do mar Mediterrâneo, mar sem ondas, transparente e o contraste maravilhoso dos tons de azul do mar e do céu e as brancas casinhas da vila grega faziam um cenário de sonho.

Minha filha, que tem autismo, se misturava às poucas crianças do lugar e eu tomava sol, colorindo um pouco a pele, depois de emendar o inverno gaúcho com o longo inverno de Londres.

Percebi uma movimentação diferente na praia, que àquela hora já estava bem cheia. Um trocar de olhares, um quase murmurinho, pescoços voltados na mesma direção. Me virei também e fiquei, por meio segundo, chocada com a cena: um respeitável senhor, de barbas grisalhas, corpo forte, se rastejava na areia em direção ao mar, chegando à beirada da água, se virou e seguiu rastejando, com muito esforço, de marcha a ré.

Com ele bem ao meu lado eu fiquei pensando o que seria “certo” fazer e então, ele me olhou e eu mantive o meu olhar, sorri enxergando nele apenas uma pessoa em uma situação diferente. Ele, claro, percebeu e sorriu de volta.

Naquele momento, eu não precisava ajudar – ele estava acompanhado da esposa – se havia algo que aquela pessoa precisava, era sentir-se capaz, ele precisava de liberdade pra se rastejar, por mais inusitado que isso possa parecer, era simples assim.

Continuei olhando, pois eu não estava “reparando”, não estava curiosa, mas eu estava compartilhando um momento, um momento em que a garra de alguém que não tem os recursos que tenho, torna possível superar o insuperável. Ele então alcançou o fundo e ficou de pé dentro da água. Seu semblante mudou, ele pôde me olhar de frente e eu entrei na água também.

Ele não falava inglês. Então, nossa comunicação foi feita em palavras soltas e muita vontade. Ele me disse seu nome, disse-me que era da Albânia, me contou que a coluna exigiu muitas cirurgias e que médicos e fisioterapeutas recomendaram nadar no mar e ele escolheu a Grécia. Dei a ele os parabéns, aplaudi o seu esforço, desejei-lhe sorte. Agradeci pela lição de vida e ele permaneceu nada menos que quatro horas dentro do mar, se exercitando com a mesma determinação com que rastejava pela areia.

Eu vi a minha admiração nos olhos das outras pessoas do lugar, apesar daquele senhor sentir-se sim, constrangido com toda a sua dificuldade – o que é natural – todos viam muito mais o esforço e a lição, do que a situação difícil de alguém que precisa rastejar para se locomover. Ele também se sentia fortalecido por sua própria coragem, seu olhar demonstrava muito mais determinação do que constrangimento, e ele também mostrou claramente em seu semblante, que sabia que estava dando o melhor de si.

E no final, a lição é mesmo essa: apenas dê o melhor de si em tudo o pretende conquistar. Vai chegar um momento em sua vida que a simples constatação de que você fez tudo o que podia ser feito, irá representar mais que a maior de todas as vitórias.