Cada vez mais difícil lidar com o que é difícil

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É estranho pensar que na juventude da minha mãe todo o serviço da casa era feito manualmente. Para a quase totalidade das famílias brasileiras não havia máquina de lavar roupa – ainda não há para muitos – ou qualquer aparelho elétrico que facilitasse a vida das pessoas. Meu avô, em seu armazém, fazia contas de cabeça, pesava e embalava os grãos e os demais produtos que vendia. A vida no campo então! Era muito mais difícil e mesmo com tudo de bom que estas pessoas vivenciaram, não tem como negar que as facilidades da tecnologia são recebidas como alternativas a uma vida menos sofrida e com muito mais qualidade.

Toda essa praticidade impressa em nosso cotidiano pela ampliação do acesso ao desenvolvimento tecnológico vai impregnando a nossa forma de se posicionar frente às demandas da vida. Vivemos a cultura da facilidade, do descartável. Se antes precisávamos cuidar do que tínhamos pelo risco de não conseguir sua substituição ou pela dificuldade em custear o conserto, atualmente, sabemos que, na maioria das vezes, substituir o que quebrou é mais barato e com a vantagem de aquisição de um produto ainda mais moderno.

Passamos a dar menos valor ao esforço do conserto e também ao valor do esforço. Quando alguma coisa difícil se apresenta na nossa vida, nosso ímpeto é se afastar, deixar para depois, procurar uma receita ou um procedimento já padronizado que facilite lidar com o complicado. Grande parte de nós reclama quando ocasionalmente perdemos o controle remoto e temos que levantar da cadeira para trocar o canal da TV!

As famílias das pessoas com deficiência precisam se superar rompendo com todo e qualquer comodismo. Têm que lidar com desafios diários nas situações mais corriqueiras e têm que contar com a colaboração de outras pessoas estranhas à sua realidade que nem sempre estão dispostas a ajudar. Não ter acesso às facilidades faz parte do lidar com o desafio da deficência. Se não nos preocupamos em construir nada, se não nos importamos com aquilo que se quebrou, imagina então quanta dificuldade temos diante de um ser humano que “não funciona” da maneira como estamos acostumados?

Onde passar com a cadeira de rodas, como mostrar alguma coisa a um cego, como me comunicar com o surdo, o que fazer diante do esquizofrênico, como conviver com minha mãe que agora tem Alzheimer, como incluir em uma escola comum o menino que tem Autismo, o que fazer diante de um paralisado cerebral que expressa o que eu não consigo entender?

A maioria dos desafios da nossa moderna época vem da difícil arte da convivência. As facilidades trazidas pela tecnologia não devem entorpecer a nossa capacidade de resiliência. Sob a pena de fracassarmos enquanto comunidade humana, se não aprendermos a conviver com tolerância e respeito, precisamos reconhecer que existem dificuldades para as quais não há manual ou tecnologia que dê jeito. O esforço deve ser nosso, pessoal, individual, na busca das estratégias internas, emocionais, amorosas que teremos que buscar para conviver melhor, para ajudar mais.

Neste mês em que as Paralimpíadas de Londres invadem as nossas manchetes com as lindas histórias de superação de toda ordem, em todos os sentidos que essa expressão pode assumir, cabe uma reflexão sobre o quanto precisamos fortalecer a nossa “musculatura emocional” enfrentando com coragem as dificuldades inerentes à vida, deixando que as facilidades nos sirvam sim, mas não o suficiente para nos moldar, para nos enfraquecer.