Da Eliminação à Inclusão – II

Compartilhe:

Na coluna anterior – Da Eliminação à Inclusão – I – afirmei acreditar que a fase atual é a melhor que as pessoas com deficiência já viveram. Na tentativa de comprovar esta visão otimista – aberta a discordâncias como quaisquer outras -, revisitei um pouco da história da humanidade. Nessa primeira parte, o período considerado foi de 10.000 a.C. até o início do século XX.

Vimos que duas formas de se relacionar e tratar as pessoas com deficiência foram preponderantes: a Eliminação e a Segregação. A Eliminação é a morte, a Segregação é o isolamento dentro de instituições do Estado ou religiosas. De uma pra outra houve uma inegável evolução, mas é nos anos 1900, com a contribuição das ciências e do desenvolvimento tecnológico, que as mudanças no tratamento e na relação deram um salto para muito melhor.

É discutível que guerras podem contribuir. No entanto, as duas mundiais, no século passado, colaboraram para o desenvolvimento tecnológico em vários aspectos e as questões das deficiências não ficaram de fora.

A Primeira Guerra Mundial, ao terminar, em novembro de 1918, deixou 6 milhões de mortos – por enfermidades ou ferimentos -, e uma quantidade imprecisa de pessoas com deficiência – mutilados, cegos, paraplégicos, etc. -, que puderam ser salvas de ferimentos ocasionados pelas armas ainda pouco letais nesse confronto. Infelizmente, não há estatísticas como a do número de mortos.

O importante é que a assistência e o tratamento médico dados, tanto às populações em geral quanto às pessoas com deficiência, observaram um avanço em poucos anos como não haviam acontecido em séculos. A consequência imediata foi o crescimento do número de pessoas com deficiência – o que exigiu novas medidas dos governos e da sociedade. Surgiram os primeiros programas de assistência e treinamento para veteranos de guerra, na realidade, a semente de um período que viria a ser conhecido como Integração.

É certo que essas fases não são excludentes entre si, ou seja, elas podem e acontecem simultaneamente. A eliminação, por exemplo, tomada aqui como sendo a primeira, retornou entre as guerras pelas mãos do nazismo que reintroduziu a Santa Inquisição numa versão moderna, com novas tecnologias, com mais resultados práticos e muito, muito mais mortal.

“Em 1º de setembro de 1939, Adolf Hitler assinou um decreto autorizando os médicos e psiquiatras a concederem o que chamavam de ‘morte de misericórdia’ a doentes incuráveis, deficientes mentais e físicos”, como relata a Deutsche Welle.

Mais uma vez, as pessoas com deficiência física e mental foram consideradas incapazes, improdutivas, inúteis para a sociedade e, neste caso, vistas como malefício à pureza da raça ariana e, portanto, não deveriam viver.
Estima-se que na Segunda Guerra, morreram de 66 milhões a 85 milhões de pessoas. Esse número só não foi maior porque, em 1928, Alexander Fleming, médico e bacteriologista escocês, descobriu o primeiro antibiótico.

Disponível como fármaco desde 1941, a penicilina contribuiu intensamente para que o número de mortos não fosse maior, mas, também, para que a quantidade de pessoas com deficiência física, principalmente, aumentasse exponencialmente, pois combatentes ou civis feridos, que morreriam de infecção foram salvos pelo novo medicamento.

Como consequência, um incontável número de homens voltaram dos campos de batalha para suas casas amputados, cegos, surdos, com doenças mentais ou mesmo com lesões que os impediram de qualquer atividade produtiva. Com a demanda para tratar e assistir essas pessoas, surgiram novas profissões como Terapeutas Ocupacionais e Fisioterapeutas.

Esse quadro pós-guerra esboçou um futuro até então não experimentado pelas pessoas com deficiência: as bases da Integração, que foi a tentativa de tratar as pessoas com deficiência tornando-as “normais”. Ou seja, por meio de terapias inovadoras com a utilização de equipamentos recém-inventados e assistência feita por organizações sem fins lucrativos, instituições religiosas ou mesmo pelos Estados, a pessoa deveria passar a mover-se, mexer-se e comportar-se de uma forma que se espera de uma pessoa “normal”, isto é, sem qualquer deficiência.

Em outras palavras, o que se esperava de uma pessoa paraplégica é que ela andasse, de uma pessoa amputada de membros superiores é que ela usasse próteses rudimentares – comparadas com as de hoje – demonstrando a mesma desenvoltura de uma pessoa com os braços.

Apesar da Integração representar, outra inegável, evolução em relação à Segregação, também, não atendeu necessidades subjetivas e objetivas de seres humanos que há pouco tempo conheceram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foi somente na década de 60 que as pessoas com deficiência tornaram-se protagonistas de suas lutas e deram um verdadeiro salto quântico na relação com a sociedade, mas isso é assunto para a próxima coluna.