Da Eliminação à Inclusão – I

Sou daqueles que acreditam que a fase atual é a melhor que as pessoas com deficiência já viveram. Esta percepção e sentimento são a partir de uma visão histórica que passo a compartilhar nesta coluna.

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Em algumas conversas sobre as questões das pessoas com deficiência, encontramos as mais diversas opiniões sobre a situação atual. Há quem afirme que melhora continuamente e outros propagam que já foi melhor, que a piora das condições estão evidentes.

Sou daqueles que acreditam que a fase atual é a melhor que as pessoas com deficiência já viveram. Esta percepção e sentimento são a partir de uma visão histórica que passo a compartilhar nesta coluna. Vamos compartilhar, a partir de hoje, um olhar de 12.000 anos na história. Esta primeira parte vai até o começo do século XX e a segunda irá até os dias de hoje.

Em 10.000 anos antes de Cristo, em Esparta, no Peloponeso grego, todos os habitantes – do nascimento até a morte -, pertenciam ao “Estado”. Os recém-nascidos eram examinados por um conselho de anciãos que ordenava a eliminação dos que tivessem alguma deficiência. Neste caso, as crianças eram atiradas do topo do monte Taigeto como oferenda aos deuses. Os espartanos acreditavam que esta eliminação os manteria como raça perfeita e guerreiros imbatíveis.

Mais à frente, o cristianismo – em sua expansão e conversão dos politeístas -, criou santos e demônios em substituição aos vários deuses responsáveis pelo bem e pelo mal que acometia o mundo. Para o bem, foram criados santos, que hoje tomam todos os dias do ano, e o mal ganhou concretude por meio das mulheres e pessoas com deficiência. As primeiras eram transformadas em bruxas e as segundas como entidades sobrenaturais de natureza maléfica porque tinham o mal no próprio corpo.

Na Idade Média, a Santa Inquisição – tribunal da Igreja Católica – torturou e eliminou incontáveis pessoas com deficiência nas fogueiras de purificação, principalmente, as surdas e aquelas com deficiência intelectual com a justificativa que não eram perfeitas e tinham o demônio dentro de si.

A Reforma Protestante contrapôs-se à Igreja Católica fazendo-a rever conceitos e práticas. Um destes vários pontos foi a mudança em relação às pessoas com deficiência que, ao invés de queimadas, passaram a serem internadas em instituições geridas por ordens católicas. Em outras palavras, as pessoas com deficiência eram impedidas do convívio social, só que não mais eliminadas e, sim, institucionalizadas até a morte.

Esta fase, iniciada nos fins da Idade Média, ficou conhecida como Segregação. Perdura até hoje, certamente, com outras condições de tratamento aos internos, mas com as mesmas características de controle social.

A Revolução Industrial – segunda metade do século XVIII e primeira metade do XIX -, alterou profundamente as condições de vida de uma larga escala da população. Até então, as pessoas nasciam com deficiência e, uma pequena parcela, tinha alguma doença que as deixara com deficiência. Era algo, portanto, visto como natural, o que contribuía, imensamente, para a visão de “Foi Deus que quis”.

No início da Revolução Industrial, os operários viviam em péssimas condições de vida e trabalho – jornadas diárias estafantes de 12 a 18 horas, ausência de qualquer treinamento para uso das máquinas, inexistência de equipamentos de proteção individual -, além dos baixíssimos salários que nem davam para a subsistência. Para crianças e mulheres, subjugados às mesmas condições de trabalho, os salários eram ainda mais baixos. As condições de moradia eram tão ruins quanto as de trabalho.

Neste quadro dantesco, os trabalhadores sofreram contínuos acidentes o que os deixavam com sequelas geradoras de deficiências. Ou seja, um grande número de pessoas passou a ter deficiências provocadas pelo trabalho e não mais naturalmente. A causa, portanto, não era mais a vontade de Deus e, sim, as péssimas condições de trabalho.

É neste momento, quando alguns médicos começam o atendimento aos acidentados, que se inicia estudos científicos sobre as deficiências e também a criação de uma nova área do conhecimento: a Medicina do Trabalho. Estas mudanças foram de importância capital para o modo como as pessoas com deficiência passaram a ser observadas. O olhar religioso foi substituído pelo olhar médico e, como tudo na vida, trouxe consequências das mais variadas. Mas isto já é assunto para a próxima coluna.