Da trama da novela à trama da vida, o autismo não obedece a padrões

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Em meio à telas expostas com graça, a artista caminha em sua primeira exposição. "Todas as telas vendidas", anuncia seu marido, um jovem bonito, bem sucedido e apaixonado. Um cara que derrubou com coragem e sensibilidade alguns padrões sociais e venceu preconceitos em nome de um grande amor. A bela jovem sorri, fala de seus sentimentos, expressa alegria pela conquista, demonstra sua gratidão pelo apoio recebido e estabelece novos objetivos de vida. Os dois se abraçam e selam com um beijo o final feliz da primeira personagem com autismo em uma novela brasileira.

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Do outro lado do continente em uma universidade canadense, uma personagem com autismo da vida real segue com seu caminho de superação. Na mesma semana, comemorando seu aniversário de 19 anos, Carly Fleischmann escrevia em sua página do facebook algo mais ou menos assim:

"Acordei esta manhã para me olhar no espelho e vejo uma garota que deve ser bastante inteligente pois está em uma universidade e vejo um sorriso capaz de iluminar o quarto. Uma pessoa com sonhos e esperanças e que está disposta a trabalhar duro e mudar o que for possível. Não vejo alguém com Autismo? Pergunta difícil, pois é só isso que parece… Eu sou lutadora e sou uma otimista e meu desejo de aniversário este ano é que todos nós possamos dar uma boa olhada em nós mesmos e pensarmos sobre o que queremos ser, porque depois de olhar a mim mesma no espelho posso dizer que gosto de ser eu".

Entre a personagem da ficção e a protagonista da história real existem muitos pontos em comum, mas a marcante diferença entre suas trajetórias talvez nos ajude a compreender melhor  o quanto a obtenção do sucesso na jornada de alguém com autismo requer mais do que supõem os elementos simplistas da telenovela.

Carly Fleischmann tem uma história bem conhecida. Já no seu primeiro ano de vida se diferenciou da irmã gêmea com um imenso atraso no seu desenvolvimento global, a família jamais desistiu dela, terapia intensiva e constante mesmo antes do diagnóstico do grau mais severo do autismo. Não verbal, ou seja, sem articular palavras, aos doze anos, mostrou em um momento de intensa dor, que conseguia digitar no computador. Após um período de trabalho intenso para explorar sua recém-descoberta habilidade, ela revelou para o mundo um pensamento coerente a despeito de um físico que externava um alheamento quase total. Seguiu-se uma história de superação constante e crescente. Hoje, ela cursa seu primeiro ano na Universidade de Toronto e lançou recentemente um livro chamado Carly’s Voice.

A OMS estima que 70 milhões de pessoas tenham autismo no mundo todo, no Brasil seriam cerca de 2 milhões de pessoas. Dá pra imaginar quão reducionista seria a visão, de que uma personagem possa representar este universo de indivíduos cada qual com seu percurso, suas características próprias e seu próprio grau de comprometimento na amplitude do chamado espectro do autismo?

Na contramão do cinema ou dos contos de fada da televisão,  milhares de famílias se desdobram com o que tem e muitas vezes com o que não tem para atender a imposição interna de fazer do filho ou filha um indivíduo autônomo e feliz. Montam associações, viajam quilômetros para pressionar o poder público e exigir direitos, lutam por uma vaga na escola, um lugar na fila, pela aceitação de suas peculiaridades, pela compreensão de suas limitações, pelo reconhecimento de seus potenciais, pelo respeito.

Nada é fácil na estrada do diferente,  nada acontece sem luta, tudo é conquista e trabalho árduo. Não há receitas, não há caminhos prontos. Que ninguém se ache doutor em autismo após assistir Ray Man ou por simplesmente assistir a novela. Infelizmente, algumas pessoas vão reduzir o autismo à história de Linda ou até mesmo achar que por trás de alguém com autismo existe sempre uma mãe super protetora.

Ainda assim, o saldo é muito positivo, pois, felizmente, a novela trouxe o autismo à tona, mostrou que são pessoas que se comportam de forma diferente e mostrou que, acima de tudo, são gente.

E você que me lê até aqui, pode contribuir para revelar pessoas põr detrás destes rótulos e mitos. Afinal, o que a pessoa com autismo precisa é muito pouco ou quase nada, só precisa que as pessoas saibam mais sobre o autismo, só precisam mesmo da compreensão que nasce do conhecimento.

E é assim com muita informação que eu e você, vamos conseguir mostrar que o autismo não é só isso, mas é também isso: pessoas com sonhos, possibilidades e potencial de serem cidadãos ainda que limitados, ou serem competentes mesmo com suas diferenças. Que podem se comportar de forma estranha e que isso não reflete o que trazem de melhor, que estão conosco aqui neste mundo mesmo quando não parece que estão. No final das contas, é a minha e a sua postura que irão fazer do nosso mundo um lugar melhor  e isso só vai ser possível quando este mundo for de fato de todos nós.