Escola especial e escola formal: pelo direito de escolha

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Outro dia, vivi a experiência de assistir crianças em uma escola especial. Havia sete garotos e uma garota, todos com necessidades diferentes, a maioria autistas. Eles estavam tão felizes que eu me senti contagiada.

Ao ver todos assim, tão empolgados, fiquei imaginando que deve mesmo ser um alívio estar em um ambiente onde há identidade, onde você pode simplesmente ser você mesmo. Foi muito legal ver que, sem a interferência de ninguém, eles cuidavam uns dos outros, demonstrando uma total empatia com a dificuldade de cada um ali presente.

Eu me senti um pouco desconfortável, pois tenho esta ideia formada, este conceito interno pronto (este “pré-conceito”) de que a criança com deficiência ou com qualquer transtorno precisa da convivência harmoniosa e acolhedora das pessoas com desenvolvimento típico em uma escola formal. Na verdade, concluí, naquele momento, o quanto eu tenho sido preconceituosa com a escola especial e seu lugar no contexto da inclusão social x exclusão.

Conversei, depois de um tempo, com uma garotinha do Brasil que tem autismo e está em uma escola regular. Ela é diferente de todos por lá e lida com muitas dificuldades, principalmente na socialização, e já viveu uma vez uma experiência de bullying. Eu então perguntei a ela se ela gostava da escola, e ela prontamente respondeu que sim, perguntei se ela gostaria de estar em uma escola especial onde outras garotas e garotos tivessem as mesmas dificuldades que ela tem, e ela me disse que não, que ela gosta de estar na escola dela, onde todo mundo é diferente (eu amei isso).

Por muito tempo, eu gritei pela inclusão nas escolas e continuo disposta a gritar e brigar por este direito. Escola significa lugar de aprender e só vai ter sentido se for para todos. Mas para todos mesmo! Não consigo conceber a sentença: “a escola não aceitou aquela criança”.

Por outro lado, é preciso que haja espaços onde as diferenças sejam entendidas e compartilhadas com naturalidade e sem barreiras. Onde as pessoas se sintam bem sem a pressão de se enquadrarem. Há pessoas que se sentem felizes em um espaço; outras, felizes em outro. Na verdade, é urgente poder escolher.

Toda escolha demanda informação. Toda escolha precisa ser pensada, e talvez seja esse o nosso medo. Diante de tamanha desinformação sobre síndromes, dificuldades, potenciais e habilidades por parte de toda a sociedade, cresce o medo de que a escolha se baseie no comodismo da opção pelo caminho mais fácil e se torne regra a segregação. Mas, para ganhar, não devemos perder – é preciso que a escola especial cresça e trabalhe junto na promoção gradual da inclusão de seus alunos, e seja espaço de permanência apenas para quem realmente a deseje e necessite.

Acredito que, se permanecermos atentos e continuarmos a lutar por menos preconceito e mais aceitação, isso não vai acontecer. Pelo menos, não vai acontecer se cada família e cada educador se comprometer, de fato, a fazer sua parte. É de indivíduo a indivíduo que se soma o social. Precisamos, por fim, entender o poder de sermos nós o que queremos que sejam os outros.

Do passado até hoje, nunca houve retrocesso. Embora haja muito a conquistar, e as mídias nos escancaram a cada segundo o quão ruim é a real aceitação das diferenças, nós devemos continuar o esforço da ampliação de direitos e sua transformação em prática. Nada de facilidades à frente – apenas a continuação da luta sem fechar caminhos abertos, mas ampliando-os sempre.

Pelo direito à escolha, pela escola que faça feliz e torne competente, que aceite e promova a convivência. Pelo não ao preconceito, inclusive, contra a escola especial.

Para que um edifício se erga, é necessária a base; para que uma sociedade seja mais pacífica, é necessária a aceitação, e esta palavra só tem sentido quando compreendida nos dois verbos que a formam: aceitar e ação. Na ação educativa, na ação inclusiva, no real acolhimento, vamos fazendo o cimento desta base que já se ergue mais firme, embora esteja, ainda, no terreno incerto dos valores que ainda não sedimentamos.

E, enquanto a escola não tiver um só significado e não comportar discussões simplesmente por ser o melhor lugar para qualquer criança estar, pelo menos por enquanto, a minha opção será a de gritar pelo direito de poder escolher.

  • Florísia Rodrigues Do Nascimen

    Vamos nos unir e fazer a Lei Brasileira de Inclusão valer na prática. Denuncie o seu não cumprimento, nem que seja através das redes sociais. A Lei Brasileira de Inclusão é um instrumento de diretos elaborado pelo Poder Legislativo, que tem por dever fazer leis que melhoram a vida dos cidadãos. Mas o que fazer se a Lei não estiver sendo cumprida? Nesse caso é preciso denunciar e buscar ajuda nos órgãos responsáveis pela fiscalização e defesa de direito. Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade) Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República – SDH/PR Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência – SNPD pessoacomdeficiencia@sdh.gov.br Defensoria Pública da União Endereço: E-mail: gabdpgf@dpu.gov.br Os surdos são ignorados em seus direitos básicos de Acessibilidade, Inclusão e cotas. Não existe cursos nem TILS em lugar nenhum em Guararema. Nem em sala de aula. Precisamos de ajuda. Algum advogado ou Defensor público poderiam nos ajudar?