Espelho quebrado

Nos fragmentos de memória do meu tempo de criança, eu lembro dos adultos me apontando outras crianças e dizendo como eu deveria ou não me comportar.

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Nos fragmentos de memória do meu tempo de criança, e lá se vão tantos anos, eu lembro dos adultos me apontando outras crianças e dizendo como eu deveria me comportar e também como não deveria. “Olha que menininha educada”, “veja que criança birrenta”. E, entre “isso é feio” e “aquilo é bonito”, eu fui crescendo e construindo a forma na qual eu supostamente deveria caber.

Acontece que não entrava, claro. Criança é criança e quer apenas ser! Então vieram as birras e as decepções comigo mesma e, depois das birras, o choro engolido e os castigos que me forçaram a caber na tal forma, pois, no meu tempo de criança, era assim que funcionava.

Deste mesmo balaio de conceitos distorcidos, nasceu o comportamento diante de alguém com deficiência. “Não olhe”, “é muito feio ficar reparando”, me diziam… então a única coisa que me restava era ignorar aquele indivíduo, fazer cara de paisagem e fingir que ele não estava ali.

Hoje em dia, percebo o quanto a deficiência ainda desconcerta as pessoas que foram forjadas para serem normais… normais, veja se pode! Construímos uma autoimagem de aceitação e, assim, conseguimos caber dentro da nossa própria inadequação. Deixamos muito da autenticidade da infância e passamos a adotar os modelos vindo dos atores, cantores, das modelos artificialmente emagrecidas, e quantas vezes copiamos também (ou até mais) quem ousa romper com o padrão? Só que esse “diferente”, “original” vira moda rapidinho e, daqui a pouco, passa a ser comum também – começa a virar a forma para todo mundo caber.

Pois bem, é justamente esta forma que nos molda que vai nos enfraquecer diante do desafio da vida, que demanda mesmo é flexibilidade, autenticidade, desvio de padrão e criatividade, que nada mais é do que aquilo que vence a mesmice.

A pessoa com deficiência tem muito a te ensinar sobre singularidade e sobre se assumir como é, afinal, ela já nasceu sem caber na forma ou foi colocada para fora dela sem opção de escolha. Ela não vai te exigir o artificial, nem vai te cobrar o normal – pelo contrário, ela vai despertar o que há de autêntico em você. Porém, para aprender, você pode e deve olhar, e também cumprimentar, e mais ainda: conviver.

Deficiência é diferença; não é incapacidade. Se é isso que você vê, realmente, você está insistindo em enquadrar. A pessoa que está na nossa frente não precisa de nossa piedade. Por isso, olhe para ela nos olhos, como você faria com qualquer um. Veja, nesta pessoa que se comporta diferente, que se move de forma diferente, que se comunica de forma diferente, a diferença que marca a sua própria autenticidade, que possivelmente está perdida em algum lugar dentro de você.

Olhe para sua diferença e se coloque em condição de igualdade com quem quer que seja. Diferente ou não, “deficiente” ou não, pessoas são apenas pessoas, naturalmente, simples assim.

Ao conseguir estar na presença das pessoas diferentes que a vida trouxer para o seu convívio, sem se sentir desconfortável, você terá quebrado a forma, rompido com o padrão que reprime e quebrado o espelho que te refletia tão ‘normal’… descobrir sua singularidade e aceitar suas próprias deficiências te abre portas importantes para uma vida muito mais rica e interessante.

Abra-se para conviver com as diferenças, aceite-as de verdade e algo dentro de você vai mudar para melhor. A imagem do espelho vai ser muito mais autêntica, pois vai refletir a imagem de alguém que se encontrou.