Humanidades

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Foi sobre humanidades a nossa conversa, eu respondi quando minha mãe me questionou sobre o que eu conversava tanto com meu vizinho. Ela achava muito estranho uma garota de 14 anos passar a tarde conversando com aquele senhor tão idoso, que vivia sozinho após a morte da esposa.

Minha mãe sorriu como se eu estivesse brincando. “Humanidades”… ela repetiu tentando entender. Mas ela não conseguiria, ninguém poderia entender porque naquela tarde, bem como em todas as outras em que estivemos juntos eu e meu amigo, conversávamos sobre tudo o que diz respeito às relações do homem com o mundo e do homem com o homem.

Éramos uma dupla e tanto! Ele, um “analfabeto de pai e mãe” como me disse um dia e eu, que nunca fui o que se pode chamar de uma aluna brilhante. Ainda assim, a gente se metia a comentar a notícia, a economia e a política e também o jeito diferente das pessoas “de hoje em dia”, como se nós dois e nossa amizade não fôssemos tão diferentes também.

No meio das nossas conversas, vez ou outra a gente se desentendia e isso também era muito legal, fazia eu me sentir importante, o que eu falava valia a pena argumentar. Não me lembrava de nenhum adulto dando tanto crédito ao que eu dizia e ele tanto dava crédito que discutia comigo. E depois chegava como que pedindo desculpas com leite trazido da roça, queijo, pamonha e doce.

Experiências assim fundamentaram o que eu sou. Fico imaginando o quanto a gente pode fazer pelo outro apenas ouvindo e respeitando, e o quanto ganhamos quando olhamos além do padrão, desconsiderando as nossas diferenças, que são todas, no final das contas, a essência da nossa condição humana.

Quando minha filha caçula teve o diagnóstico de autismo, eu tinha alguns instrumentos internos que facilitaram muito enfrentar todo aprendizado que estava por vir. Nos momentos das birras em público, dos gritos e das crises, quando ela não conseguia se expressar e me agredia ou diante de suas manias como aquela de querer levar para a escola um rolo de papel higiênico no lugar do brinquedo… Cada momento que exigiu de mim romper com o padrão ou caminhar sem mapa, encontrou o respaldo interno da minha infância e adolescência plena do aprendizado de conviver com o diferente.

O que mais me assusta em padrões impostos é o quanto desfavorece a resiliência e quão inflexíveis nos torna. Se os pais soubessem da riqueza que é a convivência inclusiva, a educação inclusiva e o pensamento inclusivo, a palavra inclusão perderia o sentido e seria substituída pelo significado amplo da palavra viver.

Que o homem que inspirou este texto saiba, onde ele estiver, que ajudou a fazer de mim um ser humano melhor.

Texto dedicado ao Sr. Cabral