Incluir o café-com-leite. A difícil tarefa de entrar no mercado possuindo uma deficiência.

Compartilhe:

Há alguns meses, fui convidado para trabalhar em uma das mais respeitadas instituições de formação superior na área da saúde. Eu, que havia trabalhado com comunicação por mais de dez anos, havia me formado em psicologia há menos de um ano.

Senti-me honrado em integrar o grupo de profissionais que professariam sobre todas as linhas da psicologia. Que, desde 1964, formam alguns dos melhores profissionais do País. Tinha sido chamado, ainda, porque algum integrante da comunidade interna tinha assistido à minha palestra e gentilmente me enviou um e-mail com um convite.

Que honra!

Sim, eu tinha sido convidado pelo fruto do meu trabalho acerca da inclusão de pessoas com deficiência, e finalmente estaria levando estas ideias para frente, expandindo a consciência de cada vez mais pessoas. Melhor credencial que essa, impossível. Senti-me reconhecido, finalmente, por minhas capacidades intelectuais. Cheguei até a pensar que esse era o começo do fim.

De qual fim? Do fim do preconceito, da desinformação e de todo o estigma que paira sobre todos aqueles que se destacam por suas deficiências, e não por suas realizações. Mas acontece que eu estava errado. A utópica proposta falhou e eu caí no lugar comum da incapacidade quase que automaticamente. Por culpa de quem? De ninguém. Por culpa dos vícios comportamentais quando nos deparamos com a deficiência.

Um grande mestre me disse certa vez que a imensa maioria dos erros dos homens está no método, e não na proposta ou objetivo. Erramos ao caminhar, pois caminhamos apenas nos caminhos conhecidos, onde temos o vício e o desleixo de quem dirige perto de casa. Mas caminhar em direção à deficiência é, na verdade, trilhar o desconhecido e arriscar-se.

Então me pergunto: “Quem, em sã consciência, pularia em direção ao abismo sem corda de segurança?”

Eu, as pessoas com deficiência e todos os excluídos e marginalizados por sua cor de pele, gênero, opção sexual ou religiosa o fazem todos os dias. Isso porque temos que vencer uma barreira a mais, além da competitividade extraordinária que vivemos hoje: conseguir o direito de sermos ouvidos sem a prévia descrença de que o que vai ser dito é bobagem.

As cotas para deficientes e negros existem para garantir a equidade dessa escuta. Mas, na verdade, estão lá para tapar um buraco mais profundo. O buraco da falta de acesso à educação. Se todos tivessem as mesmas condições, poderiam ser cobrados e avaliados com as mesmas condições. Então, os beneficiários destas cotas, que precisam delas porque não tiveram acesso à educação, apenas aumentam o abismo que existe entre os ditos “normais” e eles. Nesse sentido, caminhamos, cada vez mais, na contramão da equidade, e o resultado é o que vivemos hoje: a descrença no futuro, consequência de um paternalismo desmedido.

Sinto informar, mas o fim do preconceito está longe. E esta afirmação não deve ser vista como pessimismo, e sim realismo. Acredito que sempre é tempo de rever e caminhar na direção correta.

Qual seria o caminho para incluir os ditos “café-com-leite” de hoje, torná-los café da maior qualidade, para cobrá-los por suas competências no amanhã?

Proporcionar educação a todos e acreditar no potencial de cada um. Além disso, devemos parar de querer incluir a pessoa com deficiência e os negros pura e simplesmente. Uma vez que todos tiverem suas competências e habilidades desenvolvidas, vamos passar a incluir apenas pessoas. Sim, isto leva tempo, mas resolve o problema atual das empresas com a lei de cotas. Cansei de ouvir que tentam incluir, mas não encontram profissionais qualificados. Por isso que, mesmo que o setor privado pague o pato em vez da multa, seria bom começar a investir na formação destas pessoas.

Forme pessoas e um novo cenário surgirá. Em tempos de eleição, por mais clichê que seja esta afirmação, não devemos deixar de acreditar no amanhã e nas oportunidades. Se esta oportunidade existiu para mim, é porque o diálogo está se abrindo e os conceitos estão começando a ser revistos. A mudança cultural efetiva acontece em gerações, e não em alguns meses. Por isso, continua sendo uma honra quando me percebo fazendo parte da mudança.

Que honra!