Inclusão responsável: um direito de todos

Sempre acreditei na inclusão, e continuo acreditando. Mas o que tenho visto nas escolas não tem me agradado. Mais do que isso, tem me preocupado bastante.

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Inclusão é a palavra de ordem. A inclusão escolar é obrigatória. Ponto. Não há o que se discutir. Sempre acreditei na inclusão, e continuo acreditando. Mas o que tenho visto nas escolas não tem me agradado. Mais do que isso, tem me preocupado bastante. Vou explicar.

Acredito na inclusão responsável, onde TODAS as crianças têm o mesmo direito. O que quero dizer com isso? Simples: que crianças, com ou sem deficiência, devem ser olhadas da mesma forma e com o mesmo cuidado. Explico. Vou descrever a cena:

Olimpíadas de matemática. As crianças foram dispostas em duplas. O objetivo principal não são medalhas nem classificação, mas sim a troca de conhecimento entre os alunos. Na sala, existem duas crianças com espectro autista, ambas com dificuldades de interação, comunicação e aprendizagem. Formaram-se duplas e as crianças foram colocadas com pares sem deficiência. Incrível, fantástico, se não fosse por um detalhe: as crianças que fizeram dupla com eles não trocaram experiências, não tiveram ajuda para resolução dos problemas e saíram frustradas da atividade. Será que, nesse momento, a inclusão foi efetiva para todos? O sentimento de todas as crianças foi levado em conta? O processo de ensino aprendizagem foi pensado para todos? Penso que não. Será que, nesse caso, não seria mais produtivo e eficiente para todos se as crianças com dificuldades de aprendizagem formassem trios com seus pares em vez de duplas? Não sou contra as crianças com espectro autista estarem incluídas na sala regular. Eu acho isso incrível e acho muito importante, para todos estudantes, essa interação. O único cuidado é que todas as crianças participem de todas as atividades com a mesma possibilidade de crescimento.

Outro caso: passeio ao centro velho de São Paulo. Na sala, uma criança cadeirante – irei chamá-lo de Leo (nome fictício). O ônibus sai pontualmente às 7h40 da manhã da porta da escola. Todas as crianças eufóricas dentro do ônibus, animadíssimas com o passeio. Primeira parada, todos descem do ônibus, menos o Leo. Nessa parada, o prédio a ser visitado não é acessível. Leo e o motorista ficam dentro do ônibus aguardando o restante da sala. Todos retornam comentando a experiência vivida. A professora faz perguntas sobre o que acabaram de vivenciar e todos levantam suas mãos para responder, menos o Leo. Segunda parada: Catedral da Sé. Todos descem, inclusive o Leo. A visita à igreja foi um sucesso. Retorno ao ônibus e o mesmo ritual foi seguido: comentários sobre a visita realizada e perguntas sobre esse importante marco da cidade de São Paulo. Todos os alunos responderam, inclusive o Leo. Terceira e última parada: um passeio por importantes ruas do centro de São Paulo. O cenário: camelôs nas calçadas. Onde não havia camelôs, existiam calçadas não transitáveis, ou pelo excesso de lixo ou por anteparos, como árvores, lixeiras e orelhões. As crianças desceram, o Leo desceu, mas logo retornou ao ônibus. As professoras não conseguiram locomover a cadeira por entre os obstáculos. Quase 40 minutos dentro do ônibus, aguardando, enquanto as outras crianças passeavam. Agora meu questionamento: será que essa foi uma boa escolha de passeio para essa turma? Uma das crianças foi excluída do processo. Ela ter sido levada ao passeio é bem diferente de ter participado do passeio. Não houve inclusão. Leo foi excluído de forma cruel. A cidade de São Paulo não é totalmente inclusiva, é deficiente. Ela não favorece a interação do sujeito com o meio. No momento do planejamento desse passeio, a equipe deveria ter levado em consideração a criança cadeirante. A não valorização da deficiência é tão excludente quanto a supervalorização dela. Fingir que ela não existe cria situações como as vividas por Leo.

Esses são apenas dois exemplos de um universo infinito que eu teria para contar. Incluir por incluir, ou para satisfazer a lei, é um erro. A inclusão deve ser cuidadosa e responsável. As atividades em sala de aula ou fora dela devem incluir a todos, sem exceção. Vivemos em um mundo plural, mas somos serem singulares e devemos ser respeitados como tal.