O poder da diversidade

A diferença não pode, por si só, determinar a capacidade produtiva ou criativa de uma pessoa.

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O conceito de deficiência é muito relativo e o curso da história nos traz inúmeros exemplos de figuras consideradas geniais, que, se vivessem em nossos dias, talvez não gozassem do status que adquiriram por seus feitos.

Se observarmos o comportamento de Michelangelo, de Isaac Newton ou mesmo de Albert Einstein, todos se enquadrariam no diagnóstico de alguma síndrome descrita na contemporaneidade. O mesmo fato se repete se analisarmos detalhadamente o comportamento de Leonardo da Vinci, de Vincent van Gogh e, até mesmo, de Walt Disney, todos exemplos de mentes brilhantes que se enquadram em características descritas para determinar outro tipo de deficiência.

A diferença não pode, por si só, determinar a capacidade produtiva ou criativa de uma pessoa. Aliás, muito pelo contrário, a diferença passa a ser valorizada a partir da virada do século XXI. Não são raros, na atualidade, os recrutadores de grandes corporações que saem a campo para garimparem talentos, cuja principal característica exigida é a diversidade.

Vivemos, no passado, períodos de pasteurização da produção, tanto no que diz respeito ao produto final pretendido, quanto do ponto de vista das características exigidas para quem participaria de seu processo produtivo. Era a época da produção em massa, da implantação das grandes linhas de montagem, da massificação do consumo. Entretanto, esse modelo não acompanhou a evolução da sociedade e, por conseguinte de suas exigências, nos exigindo a busca por um novo paradigma.

O fenômeno da globalização, que encurtou distâncias e aproximou hábitos e costumes, também amalgamou os mercados, fazendo com que o mesmo sanduíche seja consumido no México e em Singapura, que o mesmo refrigerante que refresca os camaroneses mate a sede dos lituanos e, essa massificação do consumo obriga as grandes empresas a buscarem diferenciais para seus produtos a fim de garantirem sua sobrevivência. É exatamente na diversidade que reside a solução para esse dilema.

Os CEO´s das grandes corporações, mais antenados com os novos rumos do consumo mundial, têm solicitado – aos seus departamentos de Recursos Humanos – que procurem compor seus quadros de funcionários, com pessoas que possuam as mais diferentes características possíveis, tanto no que diz respeito a sua orientação sexual, formação religiosa, maneira de pensar e modo de agir, fato que nos leva ao início desta reflexão…
Nos dias de crise que atravessamos, podemos nos dar ao luxo de perdermos talentos porque esses não se enquadram nos padrões preestabelecidos?

Os diferenciais emanam de todos os potenciais e as deficiências, catalogadas e pré-diagnosticadas, não devem e não podem ser entraves a descoberta de talentos. Essa garantia só se consolida com a efetivação da Educação Inclusiva, pois é na escola, no convívio social e na vivência das experiências cotidianas que afloram as novas ideias, as novas soluções e os novos fazeres, fazendo com que se estabeleçam novos processos e se consolide a inovação. De onde vem; de quem vem; como se descobre?

A inovação está em pensarmos diferente, partirmos de novas suposições e não mais dos eternos pressupostos consolidados. A igualdade real, a chance democratizada e, sobretudo a inclusão irrestrita e universal compõem o solo fértil para que brotem as novas ideias sem preconceitos. Um lugar onde todas as manifestações sejam bem-vindas e todas as colocações se somem numa enxurrada de propostas, é assim que se consegue: transpor obstáculos; o inusitado; o nunca realizado anteriormente; o ineditismo tão almejado pelos mercados contemporâneos.

E transpor obstáculos e realizar o nunca feito anteriormente são características básicas do cotidiano das minorias. São suas lutas diárias. Daí, talvez, a razão por estar na mão dessas pessoas o potencial garimpado por tantos especialistas do recrutamento corporativo.

  • Francisco Wellington

    Olá, Érika Longone! Para o surdo, em processo de alfabetização, especialmente quanto ao português como L2 na forma escrita, é mais fácil escrever um texto por meio de glosas, que derivam da sua própria língua, a sinalizada. Ocorre que não sei quais os limites da aplicabilidade das glosas como representação escrita das ideias do surdo, Gostaria de saber se ele tem de recorrer ao português para escrever textos mais longos, ou se as glosas lhe são suficientes nesse sentido. Existe uma literatura de glosas? Espero ter sido claro, obrigado!