Para muito além da inclusão escolar

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Frequentemente sou chamada a falar sobre inclusão escolar e não há nenhuma vez que eu pense neste termo sem que ele me cause uma profunda estranheza. Para mim, desde sempre, escola e inclusão foram sinônimos, ou seja, escola inclusiva acaba soando como redundância.

Na verdade, só existe inclusão quando existe o contrário – não é possível pensar em inclusão sem reconhecer que, em algum momento, algum elemento foi excluído ou está posto do lado de fora e é preciso trazê-lo de volta para o grande grupo, que, no caso da escola, trata-se de um grupo formado por gente. Onde tem gente tem escola, tenha o formato que tiver, desde que seja gente junta aprendendo, é escola.

Minha filha caçula tem doze anos e tem autismo. Pelo fato de nos mudarmos de cidade com frequência, ela mudou algumas vezes de escola e, pelo fato de existir escolas que excluem crianças, ela mudou de escola outras vezes. Desta forma, em doze anos ela já conheceu seis diferentes escolas e não foi aceita em outras seis.

Como educadora, consigo perceber o quão difícil é estar em sala de aula com alguém que te demanda o que não está nos livros ou nas formações, somando isso a todos os demais desafios. Pensando como mãe, vejo o quanto pequenas atitudes de compreensão são suficientes para fazer diferença na vida da minha filha.

Um quadro veio à minha mente certa vez e quero compartilhá-lo com vocês para exemplificar o quão simples pode ser pensar em inclusão. Uma pequena cidade em uma grande nevasca. O frio é tanto e a neve tão abundante que as pessoas se reúnem em um abrigo. Lá fora, algumas pessoas permanecem sob a neve, que cai sem parar. Quem está do lado de dentro precisa escolher entre permitir que os outros entrem, se abriguem e sobrevivam, ou deixar que morram de frio. Sentir o desconforto de dividir o que têm, se abrigar em menos espaço ou lidar com suas próprias consciências ao assistir as mortes da janela.

Por mais extremo que seja o quadro, o grande grupo humano se reúne em cidades, estados e países para que juntos façam o melhor para si mesmos e para todos. A escola ocupa lugar fundamental no processo social, alimenta e aquece de certa forma e, quem se exclui, perde muito de tudo o que alimenta esse ser social que somos.

Quando excluímos, estamos de fato legitimando o pensamento de ditadores e extremistas que defendem um só tipo de gente, uma só possibilidade. Alguém que pode produzir, pensar e ser útil, que pode ser competente e capaz, este “merece” a escola. E você pode colocar algumas desculpas e dizer que não é bem assim, que a escola não está preparada. Mas, desta forma, você acaba defendendo a necessidade de separar crianças com qualquer limitação daquelas ditas normais. Sinto muito, mas esse é um pensamento preconceituoso e exclusivista.

Se você diz a uma mãe de uma criança com necessidades especiais que a escola não está preparada para receber seu filho, sua resposta será: eu também não estava preparada para receber meu filho, mas o amor bastou.

Esta amorosidade que a gente coloca para longe quando pensa em planejar, estruturar e formar pessoas talvez seja justamente o que vai nos salvar. Sim, pois estamos perdidos, no final das contas. Pelo menos as lágrimas que vejo rolar nos olhos da minha filha, quando enfrenta problemas ligados ao seu processo de inclusão, não me dizem de falta de estrutura, não me dizem de falta de preparo ou teoria. Elas calam bem fundo na alma, porque me contam da falta de acolhimento e compreensão. No fim de tudo, a gente precisa mesmo é de mais amor.