Preconceito e discriminação

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No trabalho de consultoria, frequentemente, lidamos com questões que exigem a conceituação de expressões ou palavras.

O título desta coluna é um bom exemplo, pois comumente há confusão quanto ao significado destas duas palavras.

Nos dicionários – Houaiss, neste caso – encontramos que preconceito é a ideia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão; ou, sentimento ou parecer insensato, especialmente de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; ou ainda, julgamento de opiniões, condutas e pessoas independentemente de suas características objetivas e se exprime ou é gerada por crença estereotipada.

Discriminação, por sua vez, é o tratamento pior ou injusto dado a alguém por causa de características pessoais; ou, ato que quebra o princípio de igualdade, como distinção, exclusão, restrição ou preferências, motivado por raça, cor, sexo, idade, credo religioso ou convicções políticas.

Como visto, os conceitos são muito próximos e, sim, as duas palavras podem ser vistas como causa e consequência. Enquanto o preconceito está no plano mental, no desejo, a discriminação é manifestação do pensamento por meio de gestos, de atitudes, de ações. Em outras palavras, a discriminação é o preconceito executado. Após um ato discriminatório, geralmente racionalizamos nossos preconceitos e passamos a explicar e justificar a existência deles.

Um exemplo: as pessoas com deficiência são ineficientes no trabalho.

Esta “verdade”, dita em pouquíssimas palavras, é somente a ponta do iceberg – metáfora desgastada, mas ainda potente para demonstrar a quantidade imensa de motivos que se deseja esconder. Pois, submerso, está o raciocínio de que, como as pessoas com deficiência não são “perfeitas”, elas têm limitações que as impedem de serem eficientes como as pessoas sem deficiência são. É evidente que a concatenação de inverdades não torna uma ideia verdadeira. Neste caso, sobram questionamentos: o que é ser uma pessoa perfeita? E as pessoas sem deficiência são mesmo eficientes?

Apoiados no falacioso raciocínio que as pessoas com deficiência não são eficientes no trabalho como as pessoas sem deficiência são, podemos, facilmente, numa disputa entre uma pessoa com deficiência e outra sem deficiência por um cargo, vetar a contratação daquela com deficiência, e estaremos, tão somente, sendo “honestos”, “justos” e “buscando a eficiência almejada da equipe e o comportamento esperado de um gestor competente”.

Neste processo, o preconceito se transformou em discriminação porque, do plano do pensamento, passou à prática. Ou seja, a ação de não contratar alguém – por uma dada característica ou condição é um ato discriminatório, e não somente um pensamento ou um desejo. O desejo se corporifica tornando-se fato de modo a retroalimentar uma cadeia de valores onde a presença da iniquidade e a ausência da empatia são as principais marcas.

É evidente que, neste processo circular de preconceitos gerando discriminações, que reforçarão preconceitos, também, ocorre quando há polos como mulheres / homens, negros / brancos, homossexuais / heterossexuais, pessoas acima de 50 anos / pessoas abaixo de 50 anos, minha religião / outras religiões etc.

Essas atitudes que almejam a boa gestão, na realidade, criam barreiras para a vida digna das pessoas. E ainda impedem que as empresas diversifiquem suas equipes com os ganhos já, amplamente, conhecidos.