Quando uma tetra volta a andar

Andar continua sendo uma atividade que faz parte da minha rotina, mesmo sem movimentos voluntários das pernas.

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Após dois meses sem caminhar por conta de uma queimadura que sofri nas costas, voltei finalmente a usar a Lokomat, uma espécie de esteira ultramoderna, com um robô que se encaixa na perna e faz o movimento da marcha. O aparelho é utilizado por pessoas com deficiência física e motora.

Ficar sem caminhar todo esse tempo foi difícil. É como quebrar o pé e não conseguir fazer academia, mesmo com uma vontade louca de malhar. Não por acaso, sempre lembro às pessoas que têm alguma imobilidade para se atentar às questões de seu corpo. Muitas vezes, um simples machucado pode te privar de fazer muita coisa.

Andar continua sendo uma atividade que faz parte da minha rotina, mesmo sem movimentos voluntários das pernas. E é curioso porque muita gente não imagina que cadeirantes não só podem ficar em pé, como também andar. Claro, salvas as devidas proporções e uma ajudinha das tecnologias.

Além de trabalhar a ossatura, a Lokomat, esse aparelho de robótica incrível, ajuda na parte muscular e nas conexões nervosas, circulação, amplitude dos movimentos e, claro, me deixa feliz. É uma descarga de autoestima que me leva a refletir sobre muita coisa. Aliás, Freud utilizava a caminhada como um exercício a ser aplicado na terapia. Tudo isso porque enquanto andarmos oxigenamos o cérebro.

Tal teoria me faz lembrar de um episódio bem marcante em minha vida…

Em 1990, depois de correr uma ultramaratona de 101 km que durou quase 20 horas, fiquei tão inspirada que resolvi contar tudo o que a experiência me agregara em uma carta a minha amiga Juliana.

Tempos depois, em um momento muito mais difícil, dentro de uma UTI, sem conseguir falar, respirar sozinha e me mexer da cabeça para baixo, a Juliana senta ao pé da cama do hospital e começa a ler uma carta.

Foi incrível porque cada frase atravessava meus pensamentos e tinha um impacto profundo no pensamento seguinte, como se aquilo fosse uma receita de grandes possibilidades que até então ninguém tinha me entregue ainda.

Quando olho para trás e recordo de tudo isso, vejo o quão viva permanece aquela maratonista. Prova maior disso é não ter condicionado a minha felicidade à falta de movimentos. Dessa forma, sigo caminhando. E do meu jeito.