Sensibilizar ou chocar?

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Na sociedade do espetáculo, onde tirar uma selfie é mais importante do que apenas vivenciar algo, vivemos um exagero de emoções, onde tudo tem que ser cada vez mais fantástico.

Procuramos o chocante, o absurdo e o colossal para que faça sentido e nos mobilize. E quando isso acontece, vale uma selfie. O que antes mobilizava e comovia, hoje é sem graça. Me refiro a todo o espectro que vai de calamidades reais, horrores da humanidade, até filmes de terror.

Isso também é visto nas revistas e filmes pornográficos. O que há 20 ou 30 anos era sexy, como insinuar um decote, hoje é banal. Com todos os decotes revelados, expostos e explorados de todos os ângulos, partimos para a concretização das bizarrices que antes moravam escondidas nas mentes dos homens.

Nada mais choca. Nada mais sensibiliza. E tudo que lemos nos jornais parece ter saído de um filme ou de um videogame. Existem aqueles que lançam mão da sensibilização como uma ferramenta, acreditando abrir caminhos para, posteriormente, aprofundar algo.

Mas se tratando de pessoas, ainda que superexpostas, quem disse que todas elas estão prontas para serem descascadas como batatas? E depois, há ainda uma irresponsabilidade. Aquele que descasca e expõe os outros a situações comoventes é capaz de conter a comoção e desorganização do grupo após fazê-lo?

Sensibilizar não é tirar a pele e depois jogar álcool. Sensibilizar é abrandar o coração, é gerar compaixão é enternecer. Este último sinônimo significa tornar terno, provocar e evocar ternura no outro.

E o que isso tem a ver com o choque? Choque na medicina é insuficiência, falência aguda dos sistemas, onde tudo paralisa e, muitas vezes, quando um paciente entra em choque, é um caminho sem volta. Choque psíquico ou o popular estado de choque é um transtorno agudo de resposta a situações-limite, onde o indivíduo vivencia profunda confusão mental.

Isto posto, não podemos dizer que choque constrói consciência e percepção do outro ou de um tema. Peter Levine, médico e terapeuta especialista em trauma, descreve que diante da situação limite, temos algumas saídas: paralisar, correr ou atacar. Reações semelhantes a dos animais, produzidas em nosso cérebro reptiliano.

Conduzir um grupo ou até mesmo um indivíduo sobre um tema requer ações ternas e amorosas em um ambiente acolhedor. Como já disse um grande mestre, o problema dos homens não está na filosofia ou no objetivo, está no método.