Sobre perder alguém

Essa fantástica capacidade humana de se compor de outros ‘eus’ faz de nós somas constantes, sempre mais e nunca menos

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Talvez a capacidade mais notável de um ser humano seja a possibilidade de aprender. O aprendizado modifica, soma e capacita. Assim, a gente segue somando, em uma biblioteca interna, as informações coletadas diariamente das mais diversas fontes das nossas relações.

O aprendizado mais marcante vem da convivência. Mais do que o que lemos nos livros, nas mídias, nas placas ao longo da estrada. É o contato com uma outra pessoa que vai ficar gravado em tintas especiais, vai ocupar lugares de destaque na “estante do nosso conhecimento” e, mesmo sem percebermos, vai impactar a nossa vida e inspirar nossas ações.

Nossa natureza busca, na imitação, uma base para se desenvolver. À medida que nos tornamos adultos, a imitação vai ficando mais elaborada e passamos a processar melhor esta cópia, imprimindo nela a nossa versão pessoal do que captamos dos outros.

Dessa maneira, o ator te inspira e o personagem e a modelo também. Mas você se norteia, indiscutivelmente mais, pelo contato que tem de forma mais imediata, nos ambientes que frequenta diariamente.

As pessoas são fontes de aprendizagens, quer elas queiram ou não. Você está sendo observado e será copiado. A palavra informa, o exemplo educa. O que você fala tem infinitamente menos peso do que aquilo que você faz.

À medida que os anos passam, as pessoas com quem convivemos assumem um valor maior, pois percebemos com mais nitidez a nossa “ida” até a estante da memória. E na nossa busca de exemplos, algumas pessoas assumem um destaque maior.

Se o momento exige calma ou energia, romantismo ou paciência, as nossas matrizes serão trazidas da memória e o que já vivemos antes vai se misturar com o que vimos os outros viverem. É a partir disso que elaboramos nossa ação ou transformamos a postura que fará parte de outras memórias e irá contagiar outros olhares. É desta forma que a gente se eterniza nas ações alheias e eterniza também aqueles que nos inspiraram.

É como na genética, a tartaruguinha nem sabe o porquê, mas segue na direção da água impulsionada por um código escrito lá no seu DNA. No nosso DNA emocional, vamos imprimindo códigos alheios, que foram significativos e captaram a nossa atenção.

Quando alguém morre, a gente costuma dizer que “perdemos” esta pessoa. E a tristeza que essa palavra carrega pesa na alma, nos sobrecarrega de pesar. Porém, seria mais justo pensar que quando alguém se ausenta do círculo da nossa convivência, deixa o vazio da presença onde antes buscávamos inspiração, ainda que inconsciente. Mas o depósito feito nos anos de convivência e troca permanece para sempre, compondo nosso mundo interno, fazendo parte do que somos, inspirando nossas ações, norteando nossas escolhas. Assim, a pessoa que se foi continua a existir.

Ninguém perde se não ganhou. A ênfase no aspecto positivo desta dualidade vida – morte vai nos alimentar diante da falta e fazer menos doloroso o nosso luto, tão natural e necessário. Ninguém perde ninguém. Essa fantástica capacidade humana de se compor de outros ‘eus’ faz de nós somas constantes, sempre mais e nunca menos.

Sou grata pelos ganhos que a vida me traz, eles são tão significativos que, quando não estão mais a meu alcance, deixam um repertório imenso de exemplos, sorrisos e atitudes que me alimentam e preenchem a falta.

Eu sei que isso não anula a dor, não diminui o impacto da ausência. Mas também sei que, de alguma forma, aqueles que comigo conviveram e não estão mais por aqui serão para sempre honrados nas minhas atitudes e o exemplo que veio deles vai se eternizar em novas inspirações. Esse será o meu compromisso de amor.