Super-Herói (Não é Fácil) – Parte III

Sobre a tendência que o inconsciente coletivo tem de colocar a pessoa com deficiência em uma de duas ‘caixinhas’: coitado ou herói exemplar.

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“O que forma um herói?”

Oi.

Neste capítulo, concluímos a série de textos que explora a importância dos super-heróis na cultura popular. Se você chegou um pouco atrasado, não tem problema. Pode ler as outras partes primeiro. Eu espero. Não quero dar spoiler pra ninguém.

Talvez o maior problema em discutir super-heróis no contexto de acessibilidade seja a tendência que o inconsciente coletivo tem de colocar a pessoa com deficiência em uma de duas ‘caixinhas’: coitado ou herói exemplar. Nenhuma delas é correta: tive a oportunidade de conversar com atletas paralímpicos e a primeira coisa que me disseram foi “somos pessoas normais, falhamos como qualquer um, temos dias ruins como qualquer um, só queremos viver nossas vidas”.

Essa foi umas das principais polêmicas que surgiram em torno das olimpíadas do Rio, algo que já discuti aqui: veículos de mídia acabaram por colocar os paratletas em um pedestal, em um nível sobre-humano de admiração, e isso é extremamente problemático, pois esses heróis, como os próprios atletas apontaram, são pessoas comuns, gente que vive vidas normais, acertando e errando, e são os primeiros a dizer que não estão acima do bem e do mal.

Estamos em uma Era onde a Esperança parece ter se perdido, onde a Humanidade parece ter se desviado do caminho inicialmente proposto: políticos com tendências ditatoriais fascistas dominam potências mundiais, a voz das ruas clama por igualdade e compreensão, e a maior parte da população se perde no diálogo. É natural então que o homem projete os anseios do inconsciente coletivo em uma figura que aparenta ser salvadora, esperando um milagre; mas, na grande maioria das vezes, essa pessoa está tão perdida quanto aqueles que lhe pedem ajuda.

Acredito que o caminho seja outro: talvez devêssemos buscar o melhor dentro de nós mesmos, individualmente, nos perguntar qual o bem que nós podemos trazer para nossa rede pessoal, para aqueles que estão a nossa volta, nas pequenas ações do dia a dia, não nos grandes gestos com grande publicidade, e assim, ouviremos mais, nos entenderemos mais, e talvez, seremos todos heróis por um dia, como cantou David Bowie.

Tchau.

We could be Heroes – just for one day.