Um segundo filho e uma valiosa lição

Dia desses fui tomada de emoção e chorei horrores durante uma conversa inesquecível que tive com a mãe de um garotinho com autismo que acompanho já há alguns anos.

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Algumas vezes a vida me presenteia com a partilha de experiências de mães muito especiais trazidas pelo autismo. Dia desses, fui tomada de emoção e chorei horrores durante uma conversa inesquecível que tive com a mãe de um garotinho com autismo que acompanho já há alguns anos. Acontece que ela decidiu engravidar de novo e sua decisão foi tomada com a consciência do risco de um autismo repetido e, segundo acompanhei, não foi nada fácil peitar este risco, mas ela e o marido decidiram assim e engravidaram.

Como tudo no autismo, as estatísticas são incertas, mas a organização americana Autism Speaks* divulga dados de pesquisas que revelam que o risco de ter uma criança com autismo é mais de 18% maior em famílias que já têm uma criança com a condição. Cada família vai crescer ou diminuir esse risco de acordo com características genéticas. Por isso, uma conversa com um bom geneticista com experiência em autismo será sempre uma necessidade a quem vive esta escolha.

Assim que a decisão foi tomada, ela engravidou e teve outro menino. Sabendo que o risco é ainda maior em meninos, fiquei curiosa em saber como eles iriam viver esta segunda maternidade. Há alguns dias, ela me ligou para dar notícias e me contar como tudo estava indo. O pequeno irmão mais velho foi extremamente bem preparado para a chegada do caçula. Muita história social e até “Tomas o trenzinho” – uma de suas fixações – ganhou um irmão trem. Além disso, um calendário marcava o tempo de gravidez, junto com todos os livros e desenhos animados que ela conseguiu para ambientar essa chegada. Um pouco por isso, um pouco pela própria doçura do primeiro filho e muito pela condução mestra dos pais, a recepção foi um sucesso e os irmãos seguem muito ligados e a família muito feliz.

Eu fiquei o tempo todo esperando que ela perguntasse sobre como eu notei que a minha filha era ‘diferente’ com apenas quatro meses de idade, quais sinais eu vi, quais sintomas ela apresentava, mas essas perguntas não foram feitas. Eu, então, decidi romper a barreira e questionei sobre o medo dela em relação ao autismo também se manifestar no pequeno. E a resposta dela foi tão linda que pedi autorização para que a transformasse em texto e aqui está.

“Cris, meu primeiro receio veio misturado sobre ele ter autismo com o medo de eu não ser capaz de amá-lo tanto como eu amo o meu primeiro filho. Eu realmente achei que não era possível para o meu coração devotar tanto amor a mais ninguém. Quanto mais a minha barriga crescia, mais eu ficava ansiosa e pensava muito se eu não iria até mesmo rejeitar esse bebê. E se eu olhasse para ele e não sentisse nada? Por muito tempo eu nem pensei em autismo. Isso realmente não parecia importante.

Nesse período, quando o meu filho tinha suas crises com gritos e birras, eu o abraçava para contê-lo e abraçá-lo, chorava por me sentir incapaz de ajudá-lo. Por não saber e entender o que ele queria, por não interpretar o motivo daquele sofrimento todo. Depois de tudo se acalmar, vinha novamente o receio de não dar conta de ser mãe de dois, de não ser suficiente e falhar.

Mas quando ouvi aquele chorinho na maternidade, aquele milagre de vida que saía de mim e chamava por mim… E que antes mesmo de chegar no meu colo se calou quando eu levantei a voz e disse: “Filho, mamãe está aqui!” E quando eu o olhei, quando ele veio se aninhar nos meus braços, eu entendi o propósito da minha vida e vi como eu tinha sido tola em desconsiderar a potência de sol do amor de mãe.

Sabe, Cris, eu não sei se o autismo está aqui outra vez e, para te falar a verdade, eu não estou procurando ver. Vai ser bem difícil ouvir de novo aquela frase como sentença: “seu filho é autista”. Eu sei que vai. Mas eu quero sempre me lembrar daquele momento na maternidade, porque eu sei que foi uma mensagem do céu pra mim e fez crescer a certeza de que diante do meu amor, tudo mais fica menor. Espero sinceramente que meu filho tenha um desenvolvimento comum, mas eu tenho certeza de que mesmo se não tiver, ele vai ter uma infância feliz e sei também que o mais importante nunca há de faltar na vida dos meus filhos: alguém para lutar por eles incondicionalmente.”

Que sorte eu tenho por conhecer pessoas tão incríveis como essa mãe e seus filhotes e aprender sempre como podemos dar novos significados às situações ajustando posturas e olhares. Eu sei que nada é poesia quando a vida é dura, mas eu também tenho tido provas numerosas de que o amor supera toda e qualquer deficiência. Se de alguma forma você não acredita nisso, talvez seja hora de ajustar as suas lentes e, nas fontes certas, redescobrir o poder do amor.

 

  • Florísia Rodrigues Do Nascimen

    Vamos nos unir e fazer a Lei Brasileira de Inclusão valer na prática. Denuncie o seu não cumprimento, nem que seja através das redes sociais. A Lei Brasileira de Inclusão é um instrumento de diretos elaborado pelo Poder Legislativo, que tem por dever fazer leis que melhoram a vida dos cidadãos. Mas o que fazer se a Lei não estiver sendo cumprida? Nesse caso é preciso denunciar e buscar ajuda nos órgãos responsáveis pela fiscalização e defesa de direito. Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade) Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República – SDH/PR Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência – SNPD pessoacomdeficiencia@sdh.gov.br Defensoria Pública da União Endereço: E-mail: gabdpgf@dpu.gov.br Os surdos são ignorados em seus direitos básicos de Acessibilidade, Inclusão e cotas. Não existe cursos nem TILS em lugar nenhum em Guararema. Nem em sala de aula. Precisamos de ajuda. Algum advogado ou Defensor público poderiam nos ajudar?