João Ribas: foco no estudo, no trabalho e na inclusão das pessoas com deficiência

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João Ribas coordena a área de Diversidade & Inclusão da Serasa Experian, onde atua no Programa de Empregabilidade de Pessoas com Deficiência. Conheça sua história de vida e confira o que o executivo diz a respeito do mercado de trabalho para pessoas com deficiência.

João Ribas

Por Daniel Limas, da Reportagem do Vida Mais Livre

No final de mais um dia, o pai do garoto João Ribas chegara em casa e entragara ao filho um equipamento de encadernação que trazia em mãos. O jovem estranhou, pois não se lembrava de ter conversado com o pai sobre o que queria ser profissionalmente – no máximo, havia comentado que estava com vontade de fazer algo para se ocupar. Pelo presente recebido, João logo pressentiu que seu pai queria que ele trabalhasse sentado a vida inteira e, assim, passou a fazer diversos trabalhos para a vizinhança.

Certo dia, o garoto se cansou de fazer encadernações. Foi quando seu pai lhe trouxe uma máquina de escrever e fichas do banco onde trabalhava, que precisavam ser preenchidas. “Cada ficha datilografada valia alguns centavinhos. Depois de umas duas mil, consegui comprar um casaco de náilon que eu tanto queria”, orgulha-se João Ribas.

Foi nesse momento, também, que o rapaz começou a pensar o que queria fazer da vida. A primeira profissão que surgiu em sua cabeça foi ser médico, até o dia em que viu uma placa de vestibular para Jornalismo, decidiu prestar e passou sem qualquer cursinho preparatório. Foi durante esse curso que João Ribas conheceu e se encantou pelas Ciências Sociais, principalmente a Antropologia, graças a um professor “sensacional”, segundo lembranças de João. “A Antropologia é uma ciência que discute a relação do ‘eu’ com o outro, e isso me entusiasmava. Como trata de relações, discute o preconceito, as diferenças e a questão da diversidade. Acho que eu já tinha dentro de mim uma vontade de trabalhar com as pessoas com deficiência”, conta.

Quando o estudante estava no último ano de Jornalismo, decidiu cursar, também, Ciências Sociais. “Aí eu já sabia que eu queria ser professor e pesquisador”, lembra. No segundo ano da nova faculdade, foi dar aula em uma escola pública estadual, como professor substituto. Lecionou até acabar as Ciências Sociais.

Imediatamente após a formatura, iniciou um Mestrado na Unicamp, prestou concurso para ser professor na PUC-SP e, tempos depois, migrou para a UNIP, onde permaneceu por quase 12 anos. Nessa época, João estava com pouco mais de 25 anos.

Antes de tudo isso, porém, em 1981, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o ano Internacional das Pessoas Deficientes (AIPD), João já havia começado a trabalhar com um grupo de pessoas com deficiência. “Além disso, meio que na cara de pau, escrevi para o editor da coleção Primeiros Passos, que era uma série de livros que tratava de assuntos complexos de uma forma simples e que já tratou de temas como: O que é Sociologia?, Música, Amor, Antropologia. Eu disse que tinha interesse em escrever sobre pessoas com deficiência e, para meu espanto, ele respondeu solicitando materiais. E esse foi meu primeiro trabalho com esse público”, orgulha-se.

Em 2001, João Ribas estava participando de uma palestra, quando foi abordado por duas pessoas da Serasa, que disseram que a empresa estava criando um programa de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Nessa época, o cumprimento da Lei 8213/91, a conhecida Lei de Cotas, começava a ficar mais em evidência. E foi assim que João Ribas assumiu a coordenação da área de Diversidade & Inclusão da Serasa Experian.

Entre suas atribuições, o executivo – que já fez um doutorado na Universidade de São Paulo (USP) com o tema “mercado de trabalho para pessoas com deficiência” – atua no Programa de Empregabilidade de Pessoas com Deficiência, que qualifica as pessoas com deficiência para viabilizar sua contratação pela Serasa Experian ou por empresas parceiras. A metodologia do programa também contempla a preparação das empresas e de suas lideranças para que recebam adequadamente as pessoas com deficiência após sua qualificação, o que é fundamental para a real inclusão.

Convivendo com o preconceito

João Ribas nasceu em São Paulo, com mielomeningocele, que é uma má-formação que evita o fechamento da coluna vertebral na parte posterior, por onde a medula nervosa acaba se exteriorizando. Ainda no hospital, com 30 dias de nascido, fez uma cirurgia corretiva, que lhe custou uma paraplegia. Permaneceu por cerca de dois meses no hospital até que sua mãe conseguisse levá-lo pra casa. Começou a andar por volta dos quatros anos, com a ajuda de um aparelho ortopédico. “Usei até meus 40 e poucos anos, mas me dei conta de que a cadeira de rodas é muito melhor”, explica João Ribas, que hoje está com 57 anos.

Seu pai era gerente de banco e, por conta disso, foi transferido diversas vezes de cidade. Santos, no litoral de São Paulo, foi a primeira delas. Permaneceu lá dos sete aos 10 anos, quando sua família se mudou para Salvador, na Bahia. Também morou em Taubaté, interior de São Paulo, cidade onde seu pai nasceu. Quando tinha 20 e poucos anos, sua família voltou em definitivo para São Paulo.

Dentre todas essas mudanças e experiências, João se recorda de uma em especial, ocorrida na sua primeira escola, em Santos, quando tinha sete anos. “Naquela época, não havia tanta informação como hoje, meus pais não sabiam o que fazer e era comum segregar as pessoas com deficiência. Então, meus pais me colocaram numa classe especial da Santa Casa de Santos. Lá, estudavam crianças com várias deficiências, das mais leves às mais comprometedoras. Vi cenas horríveis, fiquei apavorado. Aquilo, de fato, era a exclusão. Era um gueto. Meus pais tiveram bom senso e eu fiquei lá apenas 15 dias. Por sorte, em todas as outras escolas, fui tratado muito bem, talvez por não ter uma deficiência que obrigasse os professores a qualquer adaptação pedagógica”, recorda.

Mercado de trabalho para pessoas com deficiência

“A inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho é um desafio no mundo todo. Muitos outros países não fazem a devida inclusão, o que não nos exime da responsabilidade, nem significa que o Brasil está desculpado”, explica João Ribas. No entanto, o executivo acredita que o maior desafio nesta área é acompanhar as mudanças do mercado de trabalho e do mundo empresarial. No mundo capitalista, onde aquisições e fusões acontecem com frequência, as empresas querem resultados cada vez mais rápidos e, infelizmente, muitas dessas empresas ainda acreditam que as pessoas com deficiência não dão resultado. “A não ser que ela tenha muito estudo. Aí o preconceito diminui”, afirma João.

Por falar em estudo, João Ribas acredita que a informação e a educação são fundamentais para conseguir um espaço no mercado de trabalho. “Não podemos ficar parados esperando que a inclusão ocorra sem nos autodesenvolvermos, sem sabermos línguas estrangeiras, sem acompanhar o desenvolvimento do mercado, sem informática, sem estudar”, recomenda. Mas há outra situação que ele também faz questão de ressaltar, que é quando a pessoa é bastante qualificada, mas fica estacionada na carreira e não se destaca, o que dificulta promoções. “É mais difícil para as pessoas com deficiência, mas não tem jeito: é preciso esforçar-se”, orienta.

Fotos: Carol Carquejeiro