Nathalia Blagevitch Fernandez: sonhos e conquistas de uma jovem de 22 anos

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Conheça a rotina, os desafios e os sonhos de Nathália Blagevitch Fernandes, jovem de 22 anos, que nasceu com paralisia cerebral. Hoje, ela é estudante de Direito e o seu maior sonho é atuar junto à ONU, na defesa dos direitos da pessoa com deficiência.

Por Elza Albuquerque, da Reportagem do Vida Mais Livre

Conquistas e superações não faltam na vida da paulistana Nathália Blagevitch Fernandez, 22 anos. “Diante dos desafios diários, sempre lembro de uma frase que ouvi desde pequena: ‘Você é uma guerreira e nasceu para lutar’. Isso sempre me ajudou a não desistir dos desafios que a vida me traz”, disse.

Nathália nasceu com paralisia cerebral (hemiplegia), deficiência que limita a mobilidade da parte direita do seu corpo com dificuldades para escrever, manipular objetos e andar.

E quando a pauta é sonhar, Nathália tira de letra. “Meus sonhos são tangíveis. Um desses era ter uma vivência sozinha no exterior, não como turista. Isso eu já alcancei. Hoje, meu maior sonho é um dia poder atuar junto à ONU, na defesa dos direitos da pessoa com deficiência. Para isso, também pretendo fazer uma pós-graduação no exterior”, disse.

A vivência que Nathália mencionou é a sua ida a San Diego (CA – EUA), com a sua bolsa de estudos para cursar o Legal Education Exchange Program (Leep) – Fundamentals of U.S. Legal System, em San Diego (CA –EUA). O curso intensivo de introdução ao sistema jurídico norte-americano acontecerá agora, em julho de 2013.  Mesmo com todas as dificuldades e preconceito, ela é estudante da Faculdade de Direito Damásio de Jesus.

Entrevistamos Nathália para conhecermos mais a sua rotina, seus sonhos e conquistas. Confira!

Rotina

Vida Mais Livre: Quais são as maiores dificuldades que surgem por causa da deficiência? Isso a deixa indignada?
Nathália: “Fico muito irritada quando as pessoas me tratam com piedade e duvidam da minha capacidade, achando que eu tenho alguma deficiência intelectual. O despreparo de alguns estabelecimentos para lidar com o público com deficiência também incomoda bastante”.

Vida Mais Livre: Como costuma ser a sua rotina?
Nathália: “Acordo muito cedo e vou para a faculdade. Duas vezes por semana, faço musculação adaptada em uma academia que fica em um shopping, o que facilita minha mobilidade. Nos demais horários vagos, eu me dedico bastante aos estudos das matérias da faculdade e às aulas de inglês”.

Vida Mais Livre: Há pessoas que a ajudam em seu dia a dia?
Nathália: “Sim, tenho uma ajudante que me ajuda nas tarefas básicas, como me vestir, cozinhar e com algumas tarefas domésticas. Também tenho um motorista. Apesar de ser habilitada e ter um carro adaptado, não posso mais dirigir porque tenho uma grave tendinite”.

Vida Mais Livre: Atualmente namora?
Nathália: “Estou solteira e tenho aproveitado bastante este momento.  Porém, no meu último relacionamento, fui alvo de questionamentos da família dele, por conta da deficiência, a respeito da possibilidade de eu ser mãe. Foi uma situação tão inovadora quanto deselegante, pois eu nunca havia passado por isso.

Vida Mais Livre: Como é a sua vida social?
Nathália: “Saio bastante, mas prefiro shopping centers porque já sei que vou encontrar uma acessibilidade mínima. Mas também me viro bem em locais sem acessibilidade. Claro que fico aborrecida, nesses casos, mas procuro cobrar providências, sempre que me deparo com isso. Afinal, nem todo mundo consegue se virar, como eu”.

Vida Mais Livre: Como é a sua relação com seus pais?
Nathália: “A relação com toda a minha família, não só com meus pais, sempre foi fundamental na minha vida. Diante dos desafios diários, sempre lembro de uma frase que ouvi desde pequena: ‘Você é uma guerreira e nasceu para lutar’. Isso sempre me ajudou a não desistir dos desafios que a vida me trás. Afinal, meus pais me criaram para o mundo”.

Desafios nos estudos

Vida Mais Livre: Como foi a sua infância na escola?
Nathália: “Fui uma das primeiras alunas com deficiência da minha primeira escola, que não tinha a acessibilidade necessária, mas me oferecia o respaldo necessário. Desde que comecei a andar, minhas amigas me ajudavam a caminhar pela escola e, nas aulas de educação física, sempre me colocavam como juíza”.

Vida Mais Livre: Do que mais se recorda da época da escola?
Nathália: “Sempre tive dificuldades na área de exatas e o que mais me incomodou foi uma professora de desenho geométrico que exigia que eu usasse esquadros e compasso nas aulas, dizendo que eu jamais chegaria à faculdade sem isso. Mas ela se enganou e já estou no quinto ano de direito”.

Vida Mais Livre: Por qual motivo escolheu estudar Direito?
Nathália: “Desde pequena, tenho um senso de justiça muito apurado. Meu objetivo é contribuir com um Brasil mais igual e acessível para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. E isso passa, necessariamente, pelo Direito”.

Sonhos

Vida Mais Livre: Quais sonhos você já realizou?
Nathália: “Em 2012 passei quase dois meses morando em Las Vegas, onde pude ver uma sensação de liberdade, sentimento raro de sentir no Brasil. Lá, conseguia fazer atividades cotidianas, como ir à escola sozinha com minha scooter, ao supermercado etc. Além disso, também consigo me virar sozinha com as tarefas domésticas, como passar aspirador, colocar lixo na rua, pegar correspondências e outras coisas”.

Vida Mais Livre: Quais são seus planos para o futuro?
Nathália: “Atualmente, meu foco está concentrado na graduação de Direito. Além disso, quero obter um certificado internacional de proficiência em inglês para poder, no futuro, fazer uma pós-graduação no exterior”.

Vida Mais Livre: Quais foram seus primeiros desafios como pessoa com deficiência?
Nathália: “Como já nasci com a deficiência, meu primeiro desafio foi na infância, especialmente para entender o porquê meus amigos podiam brincar de pega-pega, por exemplo, e eu não”.

Vida Mais Livre: A bolsa que você conseguiu faz parte da construção desse sonho?
Nathália: “Sim. Como pretendo fazer uma pós-graduação no exterior, provavelmente nos Estados Unidos, o LEEP, que vou fazer agora, já é um curso de introdução ao direito norte-americano e poderá me abrir portas para essa futura pós”.

Vida Mais Livre: Quais são as suas expectativas em relação ao curso na Thomas Jefferson School of Law (EUA)?
Nathália: “Pretendo aprimorar meu conhecimento jurídico, além do inglês, é claro. Quero aproveitar bastante os contatos, pois o curso inclui visitas a cortes, encontro com juízes e o grupo de alunos e professores ainda é composto por grandes nomes do direito”.

Vida Mais Livre: Você foi estagiária da deputada federal Mara Gabrilli. Fale um pouco sobre sua experiência em ter trabalhado com ela.
Nathália: “O trabalho com Mara abriu um horizonte de possibilidades sobre a pessoa com deficiência e me ajudou a delinear meu futuro profissional, pois percebi que ainda há muito a fazer nesta área e que posso contribuir muito para isso”.

Vida Mais Livre: Qual foi sua primeira vitória na luta pela acessibilidade?
Nathália: “Consegui fazer com que construíssem uma rampa na entrada da faculdade em que entrei – a primeira, não a que estou no momento –, tornando-a mais acessível não só para mim, mas para outras pessoas também”.

Fotos: Arquivo pessoal.