Regina Caldeira de Oliveira: A luz da leitura para quem não enxerga

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Conheça a história de Regina Fátima Caldeira de Oliveira, coordenadora de revisão de Braille da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que ficou cega aos três anos de idade, após complicações de um glaucoma congênito.

Regina está com as duas mãos sob folhas em braile

Por Daniel Limas, da Reportagem do Vida Mais Livre

“Até meus sete anos, enxergava alguma coisa. Não sei dizer quanto. Também não tenho muitas lembranças dessa época. Mesmo assim, essa deficiência não impedia que eu brincasse, que eu corresse ou subisse em árvores”. As palavras são de Regina Fátima Caldeira de Oliveira, coordenadora de revisão de Braille da Fundação Dorina Nowill para Cegos, hoje, com 57 anos, que recebeu o diagnóstico deglaucoma congênito aos três meses de idade.

Regina conta que sua família percebeu que havia algo errado quando viram que ela evitava a luz. “Foi uma correria danada aos médicos. Minha família não tinha uma condição financeira que permitisse realizar uma série de consultas, mas fizeram tudo o que podiam para que eu tivesse o melhor atendimento”, explica. Até que Regina e sua família receberam o diagnóstico da doença e souberam que, mesmo com uma possível cirurgia, não haveria a certeza da cura. “Poderia retardar um pouco a perda total da visão, mas ela aconteceria em alguns anos”, lembra.

Aos sete anos, Regina passou por grandes complicações relacionadas ao glaucoma. A pressão intraocular subiu muito e a visão se foi totalmente. “Nesse momento, passei por uma cirurgia, tirei o olho direito e coloquei uma prótese. Lembro que não senti tanto essa perda, já que eu não enxergava tanto assim”, explica. “Acho que realmente senti a perda da visão no momento em que eu disse para a minha mãe que eu queria aprender a ler e a escrever. Precavida, minha mãe me apresentou a um alfabeto comum quando eu tinha cinco anos, antes de eu perder a visão. E foi me ensinando a identificar algumas letras e formar algumas palavras”, recorda-se.

Com sete anos, era chegada a hora de a vida escolar da pequena Regina começar. De tanto a menina insistir que queria estudar, sua mãe saiu, um dia, disposta a achar o lugar ideal. Depois de parar em alguns lugares, chegaram à Fundação Dorina Nowill, onde Regina começou a receber todas as orientações necessárias e aprendeu braille. “Eu me dediquei muito ao braille. Era uma coisa que eu queria muito. Li muito quando criança. Mesmo quando os livros atrasavam, eu relia os que eu já tinha lido. Ler muito é uma excelente dica para quem quer pegar velocidade no braille”, indica. Além do braille, os profissionais da Fundação também ensinaram à menina a mobilidade, o que significa, para as pessoas com deficiência visual, a independência.

Ela se considera uma pessoa de sorte por ter conseguido estudar e por ter encontrado bons profissionais na área. “No geral, todos foram muito bons comigo. Alguns professores, realmente, não estavam preparados nem preocupados em ir atrás de informações para que eu tivesse as mesmas oportunidades dos demais alunos”, explica. Para estudar, os docentes indicavam, com antecedência, para a sua mãe, os livros que seriam utilizados no período, e ela solicitava a adaptação para braille na Fundação Dorina Nowill ou na Biblioteca Monteiro Lobato,em São Paulo. Hoje, Regina é bacharel em Letras Português / Inglês.

Dia a dia

O alarme do despertador indica que já são 5h30 e é hora de levantar. Tranquilamente, como ela prefere ressaltar, toma seu café da manhã e entra no banho. Às 6h30, sua irmã passa na casa onde Regina mora com a mãe e, na sequência, dá uma carona até a estação de metrô mais próxima. Na Fundação Dorina Nowill, inicia sua jornada de trabalho às 8h. “Quase sempre, chego antes, cerca de 20 minutos, pois nunca sabemos se vai haver algum imprevisto de trânsito ou no transporte público”, indica. Para Regina, os transportes públicos, e quem neles trabalha, não estão bem preparados para receber as pessoas com deficiência. “A minha sorte é que os motoristas e cobradores da região onde moro já me conhecem e me tratam superbem”, alegra-se.

Nos finais de semana, não tem o hábito de sair sozinha de casa, como normalmente faz para ir trabalhar. São dois os motivos: “Entendo que lazer é algo que se faz com alguém. E também por causa das dificuldades, pois os transportes são mais demorados. Se não estão preparados para a maior parte da população, imagine para nós?”, questiona. Nas horas vagas, como não poderia deixar de ser, adora ler, assistir a filmes e escutar música. “Gosto muito de MPB – em especial, Chico Buarque, Maria Bethânia e Milton Nascimento -, além de música clássica. Gosto de música boa”, enfatiza.

Mas é nas viagens que Regina se realiza – mesmo naquelas em que viaja a trabalho. “Gostei muito de conhecer a Espanha, França e Portugal. Em 1988, passei um mês em Madrid, fazendo estágio em Produção de Braille. De lá, posso dizer que a cidade e seus moradores estão bastante preparados para receber as pessoas com deficiência visual. Em 2009, tive a oportunidade de conhecer Paris, na ocasião da comemoração do centenário de nascimento de Louis Braille, quando participei de uma conferência mundial. Conhecer Portugal também foi uma experiência muito boa”, relembra.

Lado profissional

Em 1975, quando finalizou o Ensino Médio, começou a trabalhar para a Fundação Dorina Nowill. “Eu precisava ajudar a manter minha casa e pagar a faculdade que eu queria fazer. Nessa época, meu pai tinha acabado de sofrer dois infartes em 15 dias. Procurei a Fundação para uma série de cursos e atividades, até que descobri que a instituição precisava de uma telefonista para meio período. Era a minha chance!”, orgulha-se.

Após terminar a faculdade, Regina recebeu um convite da Fundação para trabalhar na coordenação de um grupo de voluntários que faziam cópias de livros em braille. “Depois de quatro anos, eles me chamaram para ajudar na adaptação dos livros, o que possibilitou que eu trocasse experiência com pessoas de todo o Brasil”, explica. Para ela, trabalhar com o braille é muito gratificante. “É muito bom fazer um trabalho com o qual eu posso beneficiar muitos”, orgulha-se. Hoje, a Imprensa Braille da Fundação Dorina Nowill é considerada uma das maiores do mundo e a maior da América Latina. “Foi assim que, há três anos, cheguei à coordenação de oito revisores – nove comigo”, conta.

E Regina não pretende parar tão cedo, tampouco gosta de dizer que está realizada profissionalmente. “Gosto muito do que faço, mas acho que nunca devemos dizer que estamos realizados profissionalmente, pois sempre há muita coisa a fazer e a aprender. Parece que estamos encerrando a carreira”, opina. Para finalizar, ela deixa um recado: “Peço que as pessoas com deficiência visual continuem lutando por seus direitos com dignidade, que conheçam seus direitos, exerçam sua cidadania e cumpram seus deveres. Devemos buscar nossos direitos e não querer privilégios. Essa luta é boa para a gente e para outros que virão depois de nós.”